Por Eça de Queirós (1875)
Ela deu uma olhadela viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas cora o seu rosto trigueiro, de lábios rubros, a1umiado por aquele rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao órgão e um culto sussurrando em redor, faria palpitar bem forte o coração dos fiéis...
Amaro então chegou-se por detrás dela, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda - e estendendo os lábios por sobre os dela, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos de Amélia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para trás, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, ávidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração dela apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfaleceu sobre o ombro do padre, descorada e morta de gozo.
Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as pálpebras como acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:
- Oh! Amaro, que horror, que pecado!...
- Tolice! disse ele.
Mas ela desprendia-se do manto, toda aflita:
- Tira-mo, tira-mo! gritava, como se a seda a queimasse.
Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas...
- Mas não está benzida... Não tem dúvida...
Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lençol branco, colocou-o no gavetão, sem uma palavra. Amélia olhava-o petrificada; e só os seus lábios pálidos se moviam numa oração.
Quando ele lhe disse, enfim, que eram horas de irem a casa do sineiro - recuou, como diante do demônio que a chamasse.
- Hoje não! exclamou, implorando-o.
Ele insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ela bem sabia que não era pecado, quando as coisas não estavam benzidas... Era ser muito pobre de espirito... Que demônio, só meia hora, ou um quarto de hora!
Ela, sem responder, ia-se aproximando da porta.
- Então não queres?
Ela voltou-se, e com uns olhos suplicantes:
- Hoje não!
Amaro encolheu os ombros. E Amélia atravessou rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos nas lajes, como se passasse entre as ameaças cruzadas dos santos indignados.
•••
No dia seguinte de manhã, a S. Joaneira, que estava na sala de jantar, sentindo o senhor cônego subir soprando forte, veio encontrá-lo à escada e fechou-se com ele na saleta.
Queria contar-lhe a aflição que tivera de madrugada. A Amélia acordara de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no pescoço! que sufocava! que a Totó a queimava por detrás! e que as labaredas do Inferno subiam mais alto que as torres da Sé!... Enfim um horror!... Viera encontrá-la em camisa a correr pelo quarto, como doida. Daí a pouco caíra para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço... A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a manhã apenas tocara numa colher de caldo.
- Pesadelos, disse o cônego. Indigestão!
- Ai, senhor cônego, não! exclamou a S. Joaneira, que parecia acabrunhada, sentada diante dele na borda duma cadeira. É outra coisa: são aquelas desgraçadas visitas à filha do sineiro!
E então desabafou, com a efusão labial de quem abre os diques a um descontentamento acumulado. Nunca quisera dizer nada, porque enfim reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquilo começara, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, então, andava de todo. Ora alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia aos móveis. De noite sentia-a passear pela casa até tarde, abrir as janelas... Às vezes tinha até medo de lhe ver o olhar tão esquisito: quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cair de fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Enfim, dizia-se que a Totó tinha o demônio no corpo. E o senhor chantre, o outro que tinha morrido (Deus lhe fale na alma), costumava dizer que, neste mundo, as duas coisas que se pegavam mais às mulheres eram tísicas e demônio no corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar certa que aquilo nem lhe prejudicava a saúde, nem lhe prejudicava a alma. Enfim, queria que uma pessoa de juízo, de experiência, fosse examinar a Totó...
- Numa palavra, disse o cônego, que escutara de olhos cerrados aquela verbosidade repassada de lamúria; o que a senhora quer é que eu vá ver a paralítica, e saber à justa o que se passa...
- Era um alívio para mim, riquinho!
Aquela palavra, que a S. Joaneira, na sua gravidade de matrona, reservava para a intimidade das sestas, enterneceu o cônego. Fez uma carícia ao pescoço gordo da sua velhota, e prometeu com bondade ir estudar o caso...
- Amanhã, que a Totó está só, lembrou logo a S. Joaneira.
Mas o cônego preferia que Amélia estivesse presente. Podia assim ver como as duas se davam, se havia influência do espírito maligno...
- Que isto que eu faço é de agradecer... É por ser para quem é... Que bem me bastam os meus achaques, sem me ocupar dos negócios de Satanás.
A S. Joaneira recompensou-o com uma beijoca sonora.
- Ah, sereias, sereias!... murmurou o cônego filosoficamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.