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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Você, Gonçalinho, vai ter uma votação tremenda! Depois nessa noite, recolhendo à Torre,Gonçalo encontrou uma carta que o perturbou. Era de Maria Mendonça, num papel perfumado, com o mesmo perfume que tão docemente espalhava D. Ana pelo adro de Santa Maria de Craquede: - "Só esta manhã soubemos o grande perigo que passou, e ficamos ambas muito comovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e não só eu) muito vaidosa da magnífica coragem do primo. É dum verdadeiro Ramires! Eu não vou aí abraçá-lo (com risco de me comprometer e fazer invejas) porque um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente não é coisa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, ansiamos por ver o herói, e não creio que houvesse nada de extraordinário, nem dum lado nem de outro, em que o primo por aqui aparecesse além de amanhã (quinta-feira) pelas três horas. Dávamos um passeio na quinta, e até se merendava, à boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos cumprimentos, muitos, da Anica, e o primo creia-me, etc." - Gonçalo sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrara, tão claramente, a D. Ana para os braços... E como D. Ana se deixava empurrar, pronta, e de olhos cerrados... Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era também para a Igreja. E de novo sentia aquele vozeirão de Titó, nos degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: 'Essa criatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto!"

Então tomou lentamente a pena, respondeu a D. Maria Mendonça: - "Querida prima - Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus entusiasmos. Não exageremos! Eu não fiz mais que correr a chicote uns valentões que me assaltaram a tiro. É façanha fácil para quem tenha, como eu, um chicote excelente. Enquanto à visita à Feitosa, que me seria tão agradável, não a posso realizar com fundo pesar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mês... Ando ocupadíssimo com o meu livro, a minha Eleição, a minha mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente para mim - cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Peço que apresente à Sra. D. Ana os meus profundos respeitos. E com muitas amizades para si, e bons desejos pelo restabelecimento desse querido Neco, espero me creia sempre seu dedicado e grato primo, etc."

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete de armas sobre o lacre verde, pensava:

- Assim aquele maroto do Titó me rouba duzentos contos!...

Durante toda essa macia semana dos fins de setembro, Gonçalo trabalhou no Capítulo final da sua Novela.

Era enfim a madrugada vingadora em que os Cavaleiros de Santa Irenéia, reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros, surpreendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor, o bando de Baião, na sua açodada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar de armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremetida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejara Tructesindo, com ruidosa aprovação de D. Pedro de Castro, porque não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

Antes do luzir da alva, o Bastardo abalara do castelo de Landim, em dura pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogávar nem coudel lhe atalaiavam os trilhos. As cotovias cantavam quando ele, em áspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a Racha do Mouro, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem às adagas cristãs de El-Rei Fernando, o Magno, o Alcaide mouro de Coimbra e a monja que ele arrebatara à garupa. E apenas pela esguia greta enfiara a derradeira lança da fila - eis que da outra embocadura do vale surge o cerrado troço dos Cavaleiros de Santa Irenéia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por trás as lanças dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas duma levadiça. Do recosto dos cerros rola, como represa solta, uma rude e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrível! Ainda arranca furiosamente a espada, que redemoinhando o coroa de coriscos. Ainda com um fero grito arremete contra Tructesindo... Mas bruscamente, dentre um es curo magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de cânave, que o laça pela gargalheira, o arranca num brusco sacão da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E enquanto os Cavaleiros de Baião agüentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera - um rolo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastarn o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despedaçam o brial de lã roxa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas cor de ouro, tão belas e de tanto orgulho!

(continua...)

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