Por Eça de Queirós (1900)
- Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da peonada e carriagem correra,com a mira em Coimbra, para se acolher à força da Hoste Real. Nessa noite, com o seu esfalfado bando de lanças, pernoitara certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Miradáes, que trepa e foge através das lombas do Caramulo. Ora ele, Garcia Viegas, conhecia para diante do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos Cavaleiros, e alguns besteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Baião como lobo em fojo...
Tructesindo, incerto e pensativo, metia os dedos lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pusesse batalha ao Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Baião. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos de Espanha e de Portugal que saíssem ao terreiro, diante da tenda, com fartura de tochas para bem se alumiarem. E aí, no meio dos Cavaleiros curiosos, à claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com a ponta duma adaga, o roteiro da sua caçada para lhe comprovar a beleza... Dalém castelo Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam eles, com vinte Cavaleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores de ambas as mesnadas gozassem a lide. Além, se postariam, alapados no matagal, besteiros e peões de frecha. Por trás, deste lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa ajuda ele honrasse o Senhor de Santa Irenéia. Adiante, acolá, para colher pela gorja o vilão, o senhor D. Tructesindo que era o pai e Deus mandava fosse o vingador. E ali, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um porco - e como o sangue era vil, a um tiro de besta encontrariam água farta para lavar as mãos, a água do pego das Bichas!...
- Famosa traça! - murmurou Tructesindo convencido.
E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavaleiros de Espanha:
- Vida de Cristo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui o Sr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei-menino, na grande carreira, para Santo Estêvão de Gurivaz!... Entendido, pois, primo e amigo! E a cavalo, para a monteria, mal reponte a lua!
E recolheram as tendas - que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da ceia, e os uchões acarretavam, dentre os carros da sarga, os pesados odres de vinho de Tordesilhas.
Com a ceia no arraial (grave e sem ruído, porque um luto velava o coração dos hóspedes) Gonçalo terminou, nessa noite, o seu capítulo IV, lançando à margem outra nota: - "Meia-noite... Dia cheio. Batalhei, trabalhei ." - Depois no seu quarto, enquanto se despia, traçou todo o alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria cativo, à mercê vingadora dos de Santa Irenéia... Mas de manhã, antes do almoço, ao abancar com gosto para o trabalho - recebeu dois telegramas, que o desviaram deliciosamente da ardente correria contra o Bastardo de Baião.
Eram dois telegramas de Oliveira, um do Barão das Marges, outro do capitão Mendonça ambos com parabéns ao Fidalgo "por assim escapar de tão terrível espera, destroçando os valentões de Nacejas". O Barão das Marges acrescentava: - "Bravíssimo! É de herói!"
Gonçalo, enternecido, mostrou os telegramas ao Bento. A nova da sua façanha, pois, já se espalhara, impressionara Oliveira.
- Foi o Sr. José Barrolo que contou! - acudiu o Bento. - E o Sr. Dr. verá! o Sr. Dr. verá... Até no Porto se vão assombrar!
Ao bater meio-dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o imenso Titó, acompanhado pelo João Gouveia que chegara na véspera à tarde da Costa, soubera da aventura na Assembléia, corria à
Torre, como amigo para o abraço, antes de comparecer, como Autoridade, para o auto. Então Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu generosamente "que se não procedesse contra os bandidos..." O Administrador recusou, decidido e seco, proclamando o princípio da Ordem, e necessidade dum escarmento rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos bárbaros do João Brandão de Midões. Ele e Titó almoçaram na Torre - e Titó, à sobremesa, lembrou galhofeiramente a conveniência dum brinde, e bramou ele o brinde, comparando Gonçalo ao elefante, "sempre bom, que tanto agüenta, e de repente, zás, esmaga o mundo!"
Depois João Gouveia acendendo um grande charuto reclamou a representação verídica da desordem, com os pulos, os gritos, para ele se compenetrar como autoridade. Então através da varanda, reviveu a história heróica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esgaçar) os golpes que arremessara imitando os tombos meio desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó visitaram na cavalariça a égua histórica; e no pátio, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro secando ao sol, lavadas do sangue que as salpicara.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.