Por Eça de Queirós (1900)
- Pois lá estive, meu Fidalgo! - exclamou o Joaquim com o peito a estalar de importância. - E vaipor lá um povoléu, todos já sabem! Uma rapariga dos Bravais espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora. na casa, e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se caiu, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa dum compadre ali ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem boca!... Pois por todos aqueles sítios era o ai-jesus das moças!... E logo lá o carregaram para o hospital de Vila-Clara, que na casa do compadre não pode sarar. Um povoléu, e todos dão a razão ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguém o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!
Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passara dano mais forte, que beleza perdida do D. Juan de Nacejas!
- E então o povo por lá, a falar, a olhar para o sítio?
- Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão, e as pedras por onde se atirou aégua do Fidalgo... E agora até contam que foi uma espera, e que desfecharam três tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no pinhal ainda saltaram três homens mascarados que o Fidalgo escangalhou...
- Eis a lenda que se forma! - declarou Gonçalo.
O Bento aparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo afagou risonhamente o ombro do Joaquim. E embaixo a Rosa que abrisse, para o almoço da família, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a mão nas costas da cadeira murmurou gravemente: - Pensemos um momento em Deus, que me tirou hoje dum grande perigo!
Barrolo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, através dum leve suspiro, pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos; Gonçalo aclamava a travessa de pescada à espanhola - quando o pequeno da Críspola empurrou ainda a porta envidraçada "com um telegrama, que viera da Vila!" Uma inquietação deteve os garfos. A manhã correra com tantas agitações e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triunfo, se espalhara na fina face de Gonçalo:
- Não é nada... É do Castanheiro, por causa dos capítulos do Romance que eu lhe mandei...Coitado! Bom rapaz!
E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegrama, que os seus olhos afagavam: "Capítulos romance recebidos. Leitura feita amigos. Entusiasmo! Verdadeira obra-prima! Abraço!..."
Barrolo, com a boca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se dissipava:
- Enfim, boa manhã... Grande manhã!
Gonçalo, apesar das insistências de Gracinha e do Barrolo, não os acompanhou para Oliveira no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro Capítulo da Novela, e depois cerrar o preguiçoso giro de visitas aos influentes Eleitorais do Círculo. Assim rematava a Obra de Arte e a obra de Política, e cumpria, Deus louvado, a tarefa desse verão fecundo!
Logo nessa noite retomou o manuscrito da Novela e na margem larga lançou à data uma nota: "Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga terrível com dois homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei severamente..." Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.
Com grave amizade acolhia o velho homem de guerra aquele seu primo de Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Irenéia, quando os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornim. Depois, na vasta tenda, reluzente de armas, tapizada de peles de leão e de urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dor represa, a morte de seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado a punhalada pelo Bastardo de Baião, diante das muralhas de Santa Irenéia, com o sol no céu alto a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou a mesa, onde um rosário de ouro se misturava a grossas peças de xadrez; jurou pela vida de Cristo que, em sessenta anos de armas e surpresas, nunca soubera de feito mais vil! E, agarrando a mão do senhor de Santa Irenéia, ardentemente lhe ofereceu, para a empresa da santa vingança, a sua hoste inteira - trezentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.
- Por Santa Maria! Formosa arrancada! - bradou Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas aflamejar de gosto.
Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor entendia que para colherem o Bastardo vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gozada, mais utilmente serviria uma calada e curta fila de Cavaleiros, com alguns homens de pé...
- Por quê, D. Garcia?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.