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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur, desorientado, deixara cahir o chapéu : um ponta-pé arremessou-lh'o intra a parede ; aga chou-se para o apanhar ; um assobio silvou e o homem ascetico, erguendo-se, grit ou-lhe n'um impeto á Mirabeau :

— E diga lá ao Augusto PerAonagem que o man dou, que nós aqui estamos, sela medo, a preparar o dia da Justiça !

— Bravo ! Bravo !

Vozes trocistas ganiam injurias :

— Recados ao Augusto Personagem !

— Lamba-lhe as botas !

A campainha do Mathias ret iniu, zelosa da gra vidade democratica. E Arthur, at urdido, como ebrio, com as fontes a estalar, achou-se na escada escura, aos tropeções pelos degraus ; e a travez dos zumbi dos nos ouvidos, as agudezas da rebeca perseguiam no com motivos estridentos da Filha de Madame Angot.

N 'essa noite, a Concha, acordando, não o en controll ao seu lado : saltou da ca ma em camisa e á luz morbida da lamparina, viu-o no sofá de clina, abatido, com a face enterrada nas mãos.

— Que tinha ? Que era ?

Tanto carinho abalou-o, enterneceu-o e n'uma explosão de sensibilidade :

— Amas-me, querida

Se o amava

Abraçeu-se a ella, sepultou o rosto no seu peitinho, entre as rendas da camisa' como n'um derradeiro refugio e jurou-lhe que d'ahi por deante, viveriam sempre juntos !

Tomara aquella resolução sobretRdo por pero : sentia-se como um homem que torno de si só vê portas baterem-lhe violentameAte na cara, A Sociedade desdenhava-o, a expulsava-O' o Publico desprezava o seu livro' a taitteratura repellia-o, o Amor ideal fugia-lhe. Só aquella doce rapariga o acolhera com dedicaçã0 sinceridade ! Pois bem, recompensaria tanto affefto : dar-lhe-ia a casita socegada que ella ambiciona.va, um amor poetico e moço, toilettes, a considera.ção d'esposa. Que lhe importava a senhora bar(kneza da rua de S. Bento Nem uma palavra ao livro enviado com um amor tão disck.eto ! quasi a detestava por fazer parte d'aquelle Aundo egoista, secco, artificial, que na sala de D. Coutinho lhe dera olhares de lado, que não COkx1pr,ava o seu livro, que o não reconhecia como um grande homem » . . . E os republicanos? — Idiot as! Cretinos ! Odiava-os agora. E depois de tanta injustiça, de tanta hostilidade, o amor da Concha, sua sinceridade facil, parecia-lhe delicioso, de dominar a sua vida. Installar-se-ia confortavelmente com ella : mandaria ao diabo as vaidades da Sociedade e as ambições de Justiça ! Estava desilludido ! A lição fora formidavel : d'ahi por deante, só acredi- taria nas felicidades da carne--— comer bem, rolar nas boas molas d'uma tipoia, possuir as bellezas d'uma andaluza ! E o mais — á tabúa !

Melchior, consultado ao outro dia na redacção do Secuto, approvou ruidosamente (Stas resolu-

ções,

Até que emfim o Arthur tinha juizo ! Essas cousas de sociedade, de litteratura, eram historias ! Gastar o dinheiro com uma bella rapariga, isso entende-se. Ao menos gosa o seu dinheiro !

Arthur não lhe revelara o desastre do Club. Mas dissera-lhe, ao conversarem sobre o plano de concu binagem com a Concha :

— Ouga lá outra cousa : estou @om vontade d'escrever um folhetim a dar uma desanda nos republicanos !

Melchior ficou attonito :

— Porquê

Arthur hesitou :

—É que agora que os conheço melhor, está-me a parecer que são uma sucia de patifes , Melchior fitou-o :

— Pilharam-lhe dinheiro ! — exclamou radiante. Arthur, por vingança, tendo de dar a Melchior

CAP] TAL

uma explicação d'aquelle odio tão subito, disse vagamente :

— Fizeram-me uma por 'aria . .

— Calotezinho? Que lhe dizi•a eu ! Uma canalha ! É somma grossa ?

Por um resto de honest idade, Arthur disse, córando :

— Não fallemos mais n' (sso.

Mas Melchior fallou e ag ira do apoio d'A?thur, deblaterou contra « aquella corja b.

— Mas porque os detesta você tanto, Melchior

Melchior fez-se grave, affect preoccupaçõ n s politicas, resmungou : qua toe principies !

mas d'um modo tão ambigvo que Arthur suspeitou id'odios pessoaes n'aquella indigna cão philoqophica, e lembrando-se agora vagamente de ter ouvido a

historia d'uma « coça » que 01 Itr'ora o Nazareno d.era no robusto Melchior em pleno Y'artinho. Insistiu então em publicar uma desanda no Club Demo• cratico.

Mas Melchior coçou a cabeça, deu alguns passos pela saleta, com as mãos ent erradas nas algibeiras :

— Você bem vê, homem, o jornal é muito serio. Não queremos discussões essa gente. Fingimos que não sabemos que existem. Que diabo ! . . . E depois são doudos. São capazes de vivem tomar satisfacões, e eu sou obrigado a quebrar-lhes a cara. Que lh'a quebro quebrolSe lh'a 2 Quebro-lh'a tão certo como estarmos aqui ! Mas emfim, você comprehende, sempre é desagradavel !

(continua...)

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