Por Eça de Queirós (1888)
- O que, o touro? Está claro! o touro devia ser n'este paiz como o ensino é lá fóra: gratuito e obrigatorio. Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem muito de touros. Ah, lá n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava a palma... Mas as corridas tinham outro chic! Aquelles Bois de Boulogne, n'um dia de Grand-Prix, hein!... Era de embatucar!
- Sabes o que é pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos. É que tu não tenhas um four-in-hand, um mail coach. Iamos todos d'aqui, cahia tudo de chic!
Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena não ter um four-in-hand. Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da Conceição irem todos dentro d'um omnibus.
Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braços, descorçoado:
- Ahi está, sr. Affonso da Maia! Ahi está por que em Portugal nunca se faz nada em termos! É por que ninguem quer concorrer para que as cousas saiam bem... Assim não é possivel! Eu cá entendo isto: que n'um paiz, cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisação.
- Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma grande palavra!
- Pois não é verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso. Assim eu, por exemplo...
- Tu, o quê? exclamaram dos lados. Que fizeste tu pela civilisação?...
- Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou de véo azul no chapéo!
Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho, sorrindo ainda das idéas de Damaso sobre a civilisação, puxou a luneta, leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado Bonifacio.
- Isto é que é ter gosto, isto é que é comprehender as cousas! exclamava o Damaso, agitando os braços para Carlos, quando o velho desappareceu atravez do reposteiro de damasco. Este teu avô, menino, é podre de chic!...
- Deixa lá o chic do avô... Anda cá, que te quero dizer uma cousa.
Abriu uma das janellas do terraço, levou para lá o Damaso, e disse-lhe ahi, á pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle já fallara ao Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de flores. E agora só restava que Damaso amigo, como amabilidade sua, convidasse os Castro Gomes...
- Caramba! murmurou Damaso desconfiado, estás com furor de a conhecer!
Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasião para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zás, ia para a quinta passear com ella... A calhar!
- Pois vou ámanhã já fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo. Ella pela-se por bric-a-brac!
- E vens dizer-me se acceitaram ou não...
- Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende tambem de litteratura; e olha que ás vezes a conversar atrapalha...
O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a porta envidraçada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...
- E é isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente do braço.
- Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se d'elle e olhando-o com ferocidade. E você é-o no sentimento. E o Craft é-o na respeitabilidade. E o Damasosinho é-o na tolice. Em Portugal é tudo Pieguice e Companhia!
Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto, que lhe beijava a mão, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara embaraçado; o marquez instinctivamente levou a mão á algibeira. Mas o velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abençoando-o, n'um murmurio de soluços; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou n'uma voz que ainda tremia:
- Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que é peior é que por mais que se dê nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito, marquez.
- Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez commovido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.