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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Não vale nada. São muito freqüentes estas sincopes, nas doenças de coração. Esta é simples.Mas é o diabo, às vezes têm um caráter apoplético e vem a paralisia; pouco duradoura, sim, porque a efusão de sangue no cérebro é muito pequena, mas enfim, sempre desagradável. - E acendendo o cigarro: - Essa mulher um dia morre-lhes em casa.

Jorge, preocupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos.

- Sempre o tenho dito - acudiu D. Felicidade, baixando a voz, assustada.

- Sempre o tenho dito. E desfazerem-se dela.

- Além disso o tratamento é incompatível com o serviço - disse Julião.

- Enfim, mesmo a engomar roupa se pode tomar digitalis ou quinino; mas é que o verdadeirotratamento é o repouso, é a absoluta exclusão da fadiga. Que ela um dia se zangue ou que tenha uma manhã de canseira, e pode ir-se!

- E vai adiantada a doença? - perguntou Jorge.

- Pelo que ela diz já tem a dificuldade asmática, opressões, uma dor aguda na região cardíaca,flatulência, umidade nas extremidades - o diabo!

- Olha que espiga! - murmurou Jorge olhando em roda.

- É pô-la na rua! - resumiu D. Felicidade.

Quando ficaram sós, às onze horas, Jorge disse logo a Luísa:

- Que te parece esta, hem? É necessário descartar-mo-nos da criatura. Não quero que memorra em casa!

Ela, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos começou a dizer - que não se podia mandar também a pobre criatura morrer para a rua... Lembrou vagamente o que ela tinha feito pela tia Virgínia... Ia colocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé num terreno traiçoeiro. - Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ela fosse viver algures...

Jorge, depois de um silêncio, respondeu:

- Não tenho dúvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se arranje!

"Dez ou doze libras!" - pensou Luísa com um sorriso infeliz. - E à beira do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas pela aflição, e os seus olhos fatigados pelas lágrimas...

Porque, enfim, a crise tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir a criatura, ela não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, dizer a Jorge: "não quero que ela saia, quero que ela aqui morra!" E Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luísa não a defendia, não a reclamava - vingar-se-ia! Que havia de fazer?

Ergueu-se ao outro dia numa grande agitação. Juliana, muito fatigada, ainda estava na cama. E enquanto Joana punha a mesa, Luísa sentada na voltaire. à janela da sala de jantar, lia maquinalmente o Diário de Notícias, quase sem compreender, quando uma notícia, no alto da página, lhe deu um sobressalto:

"Parte além de amanhã para França o nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & Cia. Sua Excelência retira-se dos negócios da praça, e vai estabelecer-se definitivamente em França, perto de Bordéus, onde comprou ultimamente uma valiosa propriedade."

O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ela quisesse!, dizia Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro momento, aquele recurso infame, vinha-lhe a seu pesar como uma desconsolação de o ver desaparecer! Porque nunca mais voltaria a Portugal, o Castro!... E de repente uma idéia atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se direita, muito pálida. - Se na véspera da partida dele, Santo Deus! se na véspera ela consentisse!... Oh! Era horrível! Nem pensar em tal!...

Mas pensou - e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava salva! Dava seiscentos mil réis a Juliana! E o demônio iria morrer para longe!

E ele, o homem, tomaria o paquete! Não teria de corar diante dele e o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o túmulo! - E, além disso, se o Castro tinha uma paixão por ela, era bem possível que lhe emprestasse, sem condições!...

Bom Deus! No dia seguinte podia ter ali na algibeira do seu roupão as notas, o ouro... Por que não? - Por que não? E vinha-lhe um desejo ansioso de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martírios...

Voltou ao quarto. Pôs-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge que se vestia... A presença dele deu-lhe logo um remorso; ir pedir a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas palavras intencionais!... Que horror! - Mas já sutilizava. Era por Jorge, era por ele! Era para lhe poupar o desgosto de saber! Era para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas...

Durante todo o almoço esteve calada. O rosto simpático de Jorge enternetecia-a: o outro parecia-lhe medonho, odiava-o já!...

Quando Jorge saiu ficou muito nervosa. Ia à janela; o sol parecia-lhe adorável, a rua atraía-a. Por que não? Por que não?

A voz de Juliana, muito áspera, falou então nas escadas da cozinha; e aquele cantado odioso decidiu-a bruscamente.

(continua...)

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