Por Eça de Queirós (1925)
Erguera-se e ia fallando baixo a uns e outros com grandes gestos dos seus braços magros. Alguns olhares voltavam-se vivamente para Arthur e tres sujeitos cochichavam com Nazareno, que parecia mais pallido e muito
— Peço a palavra ! — bradou o Malachias, bran dindo o jornal.
A campainha retiniu e subitamente cavou-se um silencio disciplinado. Malachias então olhou em redor com triumpho : a sua larga bocoa fendida alargava-se mais n'um sorriso perverso e acariciava o queixo com os dedos magros, como que ruminando um gozo intimo. Depois de bambolear a cabeça, começou a dizer na sua voz mastigada e aguda, que, antes de discutir o profundo trabalho que todos acabavam d'ouvir com admiração — o Ma thias fez uma: grande cortezia — era do seu dever, do dever de todos —e curvava-se respeitosamente para os lados — proceder a um acto de justiça. Quando elle, na ultima sessão, exigira garantias para os novos membros admittidos, por exemplo o jura mento, bem sabia o que dizia . . .
— Bem sabia o que dizia ! Eu não sou nenhum tolo ! —e agitava os braços, esganiçando a voz — Mas os mestres . . . —e com a bocca arreganhada, baixava a cabeça humilhando-se ironicamente : — Mas os mestres , . E ahi têm o resultado ! Eu não , quero fazer verrinas, mas se me dão licença, sempre lhes passo a lêr o que ge diz n'um jornal, a respeito d'um certo membro ultimamente admittido e os cidadãos verão o que convem fazer !
Arthur sentira uma pancada no coração : no jornal que Malachias brandia reconhecera, aterrado, o Seculo ! Olhares indignados fitavam-no, e o silencio era tão grande que se ouvia vagamente, por momentos, na cervejaria proxima, as agudezas d'uma rebeca com acompanhamento d'harpa, tocando o can-can da BeJZa-Hetena,
O Malachias, então, desdobrou o jornal devagar, com solemnidade, pigarreou e disse :
— Ora escutem os senhores este mimo : O illustre auctor dos Esmaltes e Joias, que tanta sensação tem causado, o nosso amigo Arthur Corvello . . . » Santo Deus ! Era a noticia do Melchior . . . Quiz interromper, explicar, mas a lingua pesava-lhe como um pedaço de chumbo ; olhava anciosamente para uns, para outros, procurando uma protecção : mas só via faces duras, vagamente enfatuadas de serem chamadas a sentenciar. O Malachias ia lendo lentamente, sublinhando com malignidade, pondo intengões profundas, mesmo nas virgulas. A phrase em que os -Amores de Poeta eram designados como um protesto contra as idéas republicanas foi seguida d'exclamações indignadas ! Uma voz soltou :
— Oh ! que maroteira !
Arthur pensava em fugir, abalar pela escada
abaixo, quando o Malachias, voltando-se para elle com olhos arregalados de triumpho, o braço acousador, -leu com emphase : os Amores de Poeta, são dedicados a um Augusto Personagem ! »
Então um rumor de colera correu pelas cadeirase Havia interjeições de desprezo, risadas de piedade ; alguns, mais escandalizados, voltavam-se para Arthur, ameaçadores. E Mathias, immovel, tomava um aspecto rigido, á Fouquier-Tinville, de juiz d'onde sahe a morte.
Malachias elevou a voz aguda :
— Eu, agora, só pergunto se o snr. Corvello póde continuar a fazer parte do Club !
— Não ! Não ! — berraram.
— Eu só quero saber se um homem que frequenta os salões, e dedica aos tyrannos — Não ! Não ! Fóra !
Malachias voltara-se para Nazareno :
—E o snr. Jacome, que foi . . .
Mas Jacome estava já de pé, terrivel, pallido de raiva. E oom uma vivacidade estridente :
— Meus senhores, eu só esta noite li esse jornal ! Meus senhores, eu fui enganado na minha boafé ! — E batia desesperadamente no peito. — Acolhi como um amigo, quem era apenas um espião . . .
Arthur, livido, com um suor frio nos cabellos, tremulo como uma vara verde, estendia os braços, e n'uma voz estrangulada :
— Eu peço para me explicar. Vossas Excellen-
cias
— Nada d'ExceZtenciag ! — berraram-lhe.
— Os senhores podem estar certos que eu não sabia da noticia Não é verdade . , .
O Jacome gritou, mostrando-lhe o punho :
— Mente ! —E voltando-se para Mathias : — Esse homem declarou-me ha dias que era intimo dos redactores do Seculo Eu dei-lhe um artigo sobre o livro do Damião para elle obter a publicacão . . . Era uma pura questão litteraria nada de politica , Esse senhor veio-me dizer que o artigo não sahia porque o director do jornal o achava cheio d'idéas revolucionarias, quando é evidente, agora, que foi elle quem impediu a publicação — Juro ! — bradou Arthur.
— Mente ! — gritou Nazareno, batendo violentamente com o pé. O juramento conta pouco para os traidores. Veio aqui espiar , . . E eu que o apresentei, confessando o meu erro, pego a expulsão d'esse homem !
Soaram apoiados ! freneticos, d'uma colera communicada. O Mathias fez retinir a campainha e no silencio profundo, ouviu-se de novo, em baixo, as vagas arcadas da rebeca.
— Convido o snr. Arthur Corvello — disse Ma thias com solemnidade —a sahir immediatamente da sala !
— Fóra ! Fóra !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.