Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, mais brilhante. Porque não iria ella tambem vêr as curiosidades do Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft arranjava um lunch delicado no seu velho serviço de Wedgewood. Elle ficava á meza junto d'ella. Depois iam vêr o jardim já em flôr; ou tomavam chá no pavilhão japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando ambos diante d'uma bella faiença ou

d'um movel raro, e sentindo, atravez da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos seus corações... Nunca a vira tão formosa como n'essa tarde, dentro do coupé forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu

perfil. Sobre o regaço do vestido negro pousava o tom claro das suas luvas; e no chapéo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve.

A tipoia parara ao portão do Ramalhete, estavam agora entre as silenciosas tapessarias da ante-camara. - Como é que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com um tom desconfiado, desembaraçando-se do cache-nez.

Carlos olhou para elle, como mal acordado.

- Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem você razão!... Aquella era a casa do Cruges! A carruagem estava parada á porta do Cruges!... Talvez alguem que móre n'outro andar.

- Não móra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em todo o caso, é um mulherão.

Carlos achou a palavra odiosa.

Do corredor ouvia-se já no escriptorio de Affonso, atravez da porta aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'handicap e de dead-beat... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com convicção, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio no collo. Ao canto do sophá, Craft folheava um livro.

E o Damaso appellou logo para o marquez. Não era verdade, como elle estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio nacional de seiscentos mil réis havia oito cavallos inscriptos!

E, além d'isso, o Clifford trazia a Mist.

- Ah, é verdade, oh marquez, é necessario que você appareça sexta-feira á noite no Jockey-Club, para acabarmos o handicap!

O marquez arrastara uma cadeira para o pé de Affonso, para lhe fazer a confidencia dos seus achaques; mas como Damazo se mettia entre elles, fallando ainda da Mist, decidindo que a Mist era chic, querendo apostar cinco libras pela Mist contra o campo – o marquez terminou por se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar ares patuscos... Apostar pela Mist! Todo o patriota devia apostar pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador portuguez!...

- Pois não é verdade, sr. Affonso da Maia?

O velho sorrio, amaciando o seu gato.

- O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de corridas, fazer uma boa tourada.

Damazo levou as mãos á cabeça. Uma tourada! Então o sr. Affonso da Maia preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um inglez!...

- Um simples beirão, sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto n'isso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôz fóra do meu paiz... Pois é verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro touros. Cada raça possue o seu sport proprio, e o nosso é o toiro: o toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas sabe o sr. Salcede qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não ha instituição que tenha uma importancia egual á tourada de curiosos. E acredite uma cousa: é que se n'esta triste geração moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco, deve-se isso ao touro e á tourada de curiosos...

O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo é que era fallar! Aquillo é que era dar a philosophia do toiro! Está claro que a tourada era uma grande educação phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar com os touros! Oh, estupidos, acabaes então com a coragem portuguesa!...

- Nós não temos os jogos de destresa das outras nações, exclamava elle, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o football, nem o running, como os inglezes; não temos a gymnastica como ella se faz em França; não temos o serviço militar obrigatorio que é o que torna o allemão solido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a mellarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?

Craft, do canto do sophá, onde Carlos se fôra sentar e lhe fallava baixo, respondeu, convencido:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...111112113114115...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →