Por Eça de Queirós (1900)
Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicência, soprada com tão sórdida maldade sobre as pobres bochechas do Barrolo, não causava dano - antes servia, quase beneficamente, como a brasa dum ferro, para sarar um dano. O pobre Barrolo apenas se impressionara com a revelação da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrível, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavaleiro, essa mal a compreendera, escassamente a atendera num desdém distraído e cândido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrolo como flecha errada - acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressionável pudor, mostrando à pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu coração já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira, mexeriquice das Lousadas!... Certeza tão humilhadora não apagaria um sentimento - que se não apagava com humilhações mais íntimas, tanto mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato: - e agora que André se afastara para Lisboa, operaria nela, surdamente, solitariamente, sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influência sossegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas fêmeas para desencadear nos Cunhais escândalo e dor - talvez restabelecesse, na ameaçada casa, quietação e gravidade. - Gonçalo esfregou as mãos pensando - que em tão ditosa manhã talvez esse mal redundasse em bem!
- Oh Bento, onde está a Sra. D. Graça?
- A menina subiu agora há pouco para o seu quarto, Sr. Doutor.
Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador ilustre que pertencera à Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, e o sofá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordara, num arrastado labor de anos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava à Torre Gracinha gostava de reviver, no seu quarto, as horas de solteira, remexendo as gavetas, folheando velhos romances ingleses na estantezinha envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada à sua vida que cada árvore lhe sussurrava, cada recanto de verdura era como um recanto do seu pensamento.
Gonçalo subiu bateu à porta cerrada com o antigo aviso: - "Licença para o mano!" Ela correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando logo do pensamento que a enchia:
- Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos à Torre, justamente hoje, que te sucedeu coisatamanha!
- É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada de te ver... Era como se aindavivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem estranhei foi o Barrolo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava assim, vagamente: "mas que diabo faz aqui o Barrolo? Como diabo se acha aqui o Barrolo?..." Curioso, hem? Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejávamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos espanhóis...
Ela ria, lembrada dessas imaginações heróicas. E com o vestido entalado entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos - enquanto Gonçalo, encostado à varanda, considerando a Torre, retomado pela idéia duma concordância mais íntima, que desde essa manhã se estabelecera entre ele e aquele heróico resto da Honra de Santa Irenéia, como se a sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse enfim firmemente à força secular da sua raça.
- Oh Gonçalo! tu deves estar muito cansado! Depois dessa verdadeira batalha...
- Não, cansado não... Mas com fome. Com fome, e com uma sede esplêndida!
Ela pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:
- Pois o almoço não tarda!... Já andei a trabalhar na cozinha, com a Rosa, numa pescada àespanhola... É uma receita nova do Barão das Marges.
- Então insossa, como ele.
- Não! até picante: foi o Sr. Vigário-Geral que lha ensinou.
E como diante do toucador da Rainha Maria Francisca, ela arranjava à pressa os ganchos do cabelo, para aproveitar a solidão favorável, apressou com um esforço a confidência que o comovia:
- E em Oliveira? Lá por Oliveira?
- Em Oliveira, nada... Muito calor!
Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:
- Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena atividade...
Gracinha negou candidamente:
- As Lousadas? Não! Nem têm aparecido.
- Mas têm tecido!
E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem compreender, Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardara, que agora lhe pesava, como uma chapa de ferro:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.