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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Depois, fallara mais particularmente dos seus sentimentos. Dizia-se simples como uma creança, amoravel como uma pomba. Para ella, luxos, theatros, toilettes, pouh ! eram miserias ! O seu ideal era ter uma casita sua e um homem novo que a estimasse e a tratasse como uma senhora. Ella mesma coseria os seus vestidos e era facil d'alimentar como um passarinho ! Alguns gravanzos, muita ternura — e era feliz !

Ia revelando estes pormenores do seu passado e do seu caracter, ao mesmo tempo que se despia e mostrava as bellezas da sua nudez. As suas desgragag davam um encanto tocante ás suas fórmas ; havia como uma harmonia entre as fragilidades sentimentaes de sua alma e a delicadeza fina das suas linhas. Arthur escutava-a, fascinado pela sua pelle e enternecido pela sua biographia, cheio d'ardores libidinosos e de piedades christãs ! E emquanto ella punha devagar pó d'arroz ao espelho, com o peitinho ao léu onde corriam veias azues d'uma doçura aristocratica, Arthur, em redor, d'olho acceso e ima-

ginação captivada, impacientava-se no desejo de a possuir commovia-se á idéa de a reoenerar !

Depois, alta noite, ella, fez novas revelações sobre o director de caminhos cle ferro. Era um monstro que lhe puxava pelos cabellos, a amarrava por um tornozelo ao pé d'um buffete e a deixava assim, como uma cabra presa a uma estaca, com um copo d'agua e caranlellos . . . Até uma vizinha, D. Angelica Lorenzo, chorava todas as lagrimas dos seus olhos . . .

Arthur torcia-se, tomado d'un odio infernal pelo director de tos Ferro-Ca,rriles.

— Mas porque era elle assim, esse bruto ?

Ella suspirou e revelou-lhe ao ouvido, que era por ser fria com elle » . , . Mas então — com homens de quem não gostava, não podia ser senão fria. E dava-lhe assim a entender a exaltação voluptuosa que mostrara era uma certeza do seu amor por elle.

Áquella revelação, Arthur, apertando-a doudamente nos braços, jurou-lhe que a amava e que a faria feliz : prometeu-lhe que voltaria essa noite mesmo—e que lhe traria uma somDrinha côr de peito de rÔla, que ella vira no Valente e lhe virava

o somno.

Todo o dia, passou-o saboreando, ruminando as felicidades da noite. Sempre, desde Coinn,bra, desde as suas leituras de Musset, as Andaluzas, — tes Andalouses aux seins brunis—se tinham conselvado

para elle como um ideal de voluptuosidade; e a posse d'uma, emfim, e tão tocante, tão infeliz, tão inge- nua, tão aristocratica, dava-lhe como que o orgu lho d'uma iniciação. Comprou-lhe a sombrinha e doug pares de luvas — desejaria dar-lhe diamantes, como um devoto que orna um idolo. E ia pelas ruas com um vago sorriso beato, o corpo lasso, a alma suavemente enternecida, pensando n'ella, parecendo-lhe que a cidade tinha uma elegancia mais amorosa, que o céu era mais azul, e respirando com languidez al guma cousa de romantico e de triste que lhe parecia errar subtilmente no ar.

Pensou mesmo com tedio no Club Democratic0' onde tinha d'ir n'essa noite ; julgava bem seccante o apparato maçador d'uma sessão republicana — agora que só respirava bem no ar abafado do quar tito da Concha. E como quiz ir vêl-a, beijal-a depois do jantar, eram quasi dez horas quando che gou ao Club.

No meio d 'um silencio grave, Mathias acabava de lêr o grande escripto : Programma d'Organi gação Democratica. Como todas as cadeiras estavam occupadas, Arthur, um pouco acanhado, ficou de pé, encostado á parede.

A sala estava quente das respirações e da intensa attengão apaixonada. Mathias pareda palido de fadiga : a sua voz secca, lenta, tinha agora, lendo a peroração, uja vigor exaltante e em todas as physionomias, nas attitudes, havia a animação satisfeita de quem res pira um ar regenerador.

A primeira parte da leitura fôra um libello amargo contra o Regi',nen Constitucional, deduzido por factos e cifras, e que regosijara todos os descontentamentos como a expressão bem clara de odios indefinidos ; depois, a parte pratica do programma, mostrando meios de estabelecer a Republica, apaziguara emfim os ambiciosos, que, até ahi, no Club, só tinham escutado uma vaga phraseologia balançando-se ao acaso ; finalmente, a peroração, as grandes phra ses, com appellos á Justiça e invocações á Liberdade, electrisava os mais obtusos, como uma bella rajada d'instrumentação. Todos pareciam comprehender, querer, sentir : Arthur desconhecia aquelles rostos que vira vazios e aparvalhados e que encontrava agora expressivos e determinados; e elle mesmo se sentiu vibrar, em harmonia com a eloquencia revolucionaria d'aquella prosa elevada— quando Mathias terminou com uma larga apostrophe á Repvblica Universal !

Os bravos I romperam ; um brouhaha animado elevou-se ; e então, no amor, Arthur viu o Mala chias, o homem sujo e ariarello, que fallava voltado para o secretario, agitando um jornal.

— Pego a palavra, pego a palavra ! — exclamava.

(continua...)

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