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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Junto da mesa, um homem, com o busto todo nú, o rosto livido, os cabellos empastados n'nm suor frio, erguia ao ar o braço direito, todo coberto d'uma pasta de sangue escuro que gotejava devagar : o chão estava encharcado d'uma humidade negra. Sobre a toalha da mesa, repuxada a nm canto, negra de vinho entornado, estavam pratos quebrados, estilhaços de copos, e uma rapariga que duas mulheres acalmavam, seguravam, chorava convulsivamente, arrepellando-se, com os olhos esgazeados, a face manchada de vermelho. Um individuo gordo e calvo, d'ar importante, procurava vedar o sangue, mas a toalha enrolada ensopava-se depressa : as carnes estavam dilaceradas por facadas transversaes e apenas lavado com muita agua, o sangue recomeçava a correr, cahindo em gotas pesadas. O rapaz immovel, mudo, corajoso, perdia a côr ; os olhos embaciavam-se-lhe. Todos os rostos estavam amarellos de terror : perguntava-se baixo pelo medico t, uma creada, toda esguedelhada, esfregava o chão ; e o dono do hotel, em de camisa, as calcas muito erguidas pelos suspensorios, ia pedindo que se retirassem, que não fizessem barulho », affirmando « que não era nada, que fôra por acaso », seguido da mulher, que, de peitos á mostra, em camisa de dormir, procurava acalmar uma ereanga estremunhada que se torcia, aos berros.

Melchior, muito branco, quiz partir immediatamente ; nem deixou o Teso dar uma sopa ao gado : empurrou á pressa as hespanholas para dentro da caleche, subiu, e fechou rapidamente a portinhoIa, como para se refugiar na tipoia, tremulo, cheio do terror das desordens, dos fadistas, da policia e do sangue,

— Isto só a nós ! — disse elle a Arthur.

Declarou que tinha tonturas :

— Vá, Teso, é largar. É largar, que diabo !

A volta para Lisboa foi lugubre : as raparigas falavarn baixo, tomadas d'um vago terror ; tiuham reconhecido o rapaz — era o Álvaro, o querido da Adelaide, da rua do Norte. Fôra questão de ciumes, de certo ; e gabavam-lhe a coragem, a brancura da pelle, vagamente enamorad2,s d'el]e. Melchior, mudo como uma estatua, sem veia, torcendo nervosamente o bigode, ia sondando os recantos escuros do caminho, no susto de assaltos posciveis, apressando o Teso, avido de se encontrar em Lisboa, no socego das ruas populcsas5 sob a protecção da patrulha. Só começou a tranquilizar-se quando a tipoia rolou pela rua. Era uma pandega estragada! E deblaterava agora contra tudo o que até ahi fôra celebrando : os fadistas, a solidão do Dáfando e as relações de prostitutas.

Foram cear ao Silva. E ahi, bem seguro dentro das qnatro naredes do gabinete. á luz queate do gaz, recobrada a loquacidade, contou outras desordens a que assistira, a maneira como salvara o celebre Viola d 'uma facada do Rei de Copas e os faias que tinha esbofeteado. Estimava agora ter visto aquelle chinfrim e foi á sala procurar pessoas conhecidas a quem repetia prolixamente o caso assegurando que se não fôsse el-le, o pobre diabo escoava-se em sangue.

No emtanto, no gabinete, esperando as ostras, Arthur revirava olhos ternos para a Concha, cons trnindo laboriosamente phrases hespanholas : e para Ilhe dar uma alta idéa do seu valor, recitava-lhe ardentemente dous versos d'Espronceda que sabia de côr :

Porque vuelve a Ia memoria mia

Triste recuerdo dei placer perdido

Ao outro dia, quando ás 10 horas da manhã en-

trou no Hotel para mudar de roupa, vinha enamorado da Concha.

Na intimidade da alcova, ella contara-lhe a sua vida. Não era filha d'um general — segundo a versão de Melchior — mas seu pae, cunhado d'um capitão, negociava honestamente em vinhos, n'uma localidade que ella não quiz revelar. Seduzida — innocente que era então ! — pelo filho d'um marquez, fôra esconder a sua gloria e a sua vergonha n'um terceiro andar da melancolica rua de S. Juan de Dios, em Madrid. O seu amante, cujo titulo era confuso, ora conde, ora simplesmente visconde, era um carlista fanatico, que se alistara nos bandos de Saballo e morrera junto a Estella, n'um encontro de cavallaria. Ella — pobrecíta ! — só, miseravel, depois de ter empenhado uma por uma todas as suas ricas joias — rubis, perolas, diamantes, que o carlista lhe dera com uma profusão de Grande d'Hespanha, vira-se forçada — ah, bem forçada — a aceitar o amor d'um director de caminhos de ferro, um primeiro andar em Fuencarral e um coche. Este coche parecia ser a gloria eminente do seu passado : fazia-o rolar constantemente atravez da sua historia— ora cictoria aberta aos tepidos aromas dos arbustos do Retiro, ora coupé assetinado, correndo silenciosamente sobre a neve da Fuente — pus

xado por um cavallo branco quo se chamava Miramolinos . . . Mas os ciumes ferozes do director de caminhos de ferro, a sua bengala tão dura aos pobres hombros tenros, obrigaram-na um dia a vir refugiar-se em Lisboa, com o « vestidinho que trazia no corpo », n'uma casa amigavel e hospita leira da rua de S. Roque Mui desgraciada !

(continua...)

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