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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Mas Carlos vinha de lá enervado, amollecido, sentindo já na alma os primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles braços perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoço, - e agora, pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia as folhagens da alameda, elle ía pensando como se poderia desembaraçar da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... É que a condessa ía-se tornando absurda com aquella determinação anciosa e audaz de invadir toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo - como se o primeiro beijo trocado tivesse unido não só os labios de ambos um momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde lá tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: Se tu quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sós!... E isto era claro – a condessa concebera a idéa extravagante de fugir com elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo, o mais longe possivel da rua de S. Marçal! Se tu quizesses! Não, com mil demonios, não queria fugir com a sr.ª condessa de Gouvarinho!...

E não era só isto - mas ainda exigencias, egoismos, explosões tumultuosas d'um temperamento cioso: já mais de uma vez, n'essas duas curtas semanas, por pieguices, ella despropositára, fallara de morrer, debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o inquietava eram certos clarões que lhe sulcavam o rosto, um dardejar nervoso dos olhos seccos, revelando a paixão que se accendera n'aquelles nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava até ás profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil, sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os braços, e queria fugir com elle - então adeus! Tudo estava estragado; e a sr.ª condessa com a sua verbena, os seus cabellos côr de braza, e o seu pranto, era apenas um trambolho!

O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E Carlos descia a rua de S. Roque - quando encontrou o marquez, sahindo d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço abafado n'um enorme cache-nez de seda branca. - Que é isso? Constipação? perguntou Carlos.

- Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma lentidão de moribundo. Deitei-me tarde. Cançasso.

Oppressão no peito. Pigarreira. Dôres no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados.

- Não seja piegas, homem! Você o que precisa é roast-beef e uma garrafa de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Ramalhete?... É, até tem lá o Craft e o Damaso... Então descemos por essa rua do Alecrim, que já não chove, depois pelo Aterro fóra, a passo gymnastico, e em chegando lá você está curado.

O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo, uma dôr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, liquidado. O mundo começava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma preoccupação angustiosa da Eternidade.

N'esses dias fechava-se no quarto com o padre capellão - com quem ás vezes, todavia, terminava por jogar as damas.

- Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me você ir primeiro ao Gremio... Quero escrever á Manoeleta que não conte comigo esta noite...

Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, na quinta materna, ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia chamar o Lodaçal - escripta para se vingar de Lisboa.

- O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais no cache-nez, é se eu estou assim no domingo para as corridas!

- O quê! exclamou Carlos, então as corridas são já no domingo?

O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande sportman de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford

era um gentleman e com os seus cavallos de raça, os seus jockeys inglezes, constituia a unica feição séria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era uma brincadeira de pilecas e d'abas...

- Você não conhece o Clifford?... Bello rapaz! Um pouco poseur, mas oiro de lei.

Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braço a Carlos.

- Veja esse pulso!

- O pulso está excellente... Vá você dar lá esse golpe á Manoela, que eu fico aqui á espera.

(continua...)

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