Por Eça de Queirós (1878)
E terminou dizendo: - Não esqueçamos, meus amigos, como portugueses, de fazer votos pelo ilustrado monarca, que deu às neves da minha fronte, antes de descerem ao túmulo, a consolação de se poderem revestir com o honroso hábito de São Tiago! Meus amigos, à família real! - e ergueu o copo - à família modelo, que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa política, dirige... - Procurou o fecho; havia um silêncio ansioso - dirige... - Através das lunetas negras, os seus olhos cravavam-se, à busca da inspiração, na travessa da aletria - dirige... - Coçou a calva, aflito; mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrara a frase; e estendendo o braço - ... dirige a barca da governação pública com inveja das nações vizinhas! A família real!
- À família real! - disseram com respeito.
O café foi servido na sala. As velas de estearina punham uma luz triste naquela habitação fria; o Conselheiro foi dar corda à caixa de música; e, ao som do coro nupcial da Lucia, ofereceu em redor charutos.
- E a Sra. Adelaide pode trazer os licores - disse à Filomena.
Viram então aparecer uma bela mulher de trinta anos, muito branca, de olhos negros e formas ricas, com um vestido de merino azul, trazendo numa bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa de conhaque e o frasco de curaçau.
- Boa moça! - rosnou com o rosto aceso o Alves Coutinho.
Julião quase lhe tapou a boca com a mão. E falando-lhe ao ouvido, olhando o Conselheiro, recitou:
- Não ouses, temerário, erguer teus olhos Para a mulher de César!
E enquanto se bebia o curaçau, Julião pé ante pé dirigiu-se ao escritório, e foi erguer a ponta do xale-manta pardo que tanto o preocupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas as obras do Conselheiro intactas!
Quando Jorge entrou, às onze horas, Luísa já deitada lia, esperando-o.
Quis saber do jantar do Conselheiro.
Excelente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. Tinha havido speechs... E de repente:
- É verdade, onde ias tu a Arroios?
Luísa passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse, bocejando ligeiramente:
- A Arroios?
- Sim. O Saavedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todosos dias para lá, de trem e a pé.
- Ah! - fez Luísa depois de tossir - ia ver a Guedes, uma rapariga que andou comigo no colégio,que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes!
- Sílva Guedes!... - disse Jorge refletindo. - Imaginei que estava secretário-geral em CaboVerde!
- Não sei. Estiveram aí um mês no verão. Moravam a Arroios. Ela estava doente coitada: eu ia láàs vezes. Mandava-me pedir para ir lá. Põe essa luz fora, está-me a fazer impressão.
Queixou-se então que toda a tarde estivera esquisita. Sentia-se fraca, e com uma pontinha de febre...
E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente de peso na cabeça, mal-estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge não saiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luísa insistiu que não era nada, um bocadito de fraqueza talvez... Foi também a opinião de Juliana, em cima na cozinha.
- Que aquela senhora é fraca; ali há coisa do peito - disse com importância.
Joana que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo:
- O que ela é, é uma santa!...
Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho:
- A Sra. Joana diz isso como se as outras fossem uma peste.
- Que outras?
- Eu, vossemecê, a mais gente...
Joana sempre remexendo nas panelas sem se voltar:
- Olhe, outra não encontra vossemecê, Sra. Juliana! Uma senhora que lhe fazer tudo o quequer, e faz ela mesma o serviço! Noutro dia andava a despejar as águas. E uma santa!
Aquele tom hostil de Joana exasperou-a; mas conteve-se; apesar da sua posição na casa, dependia dela para os caldinhos, os bifes, os petiscos; tinha diante dela a vaga timidez respeitosa das constituições franzinas pelos corpos possantes; pôs-se a dizer com uma voz tortuosa, ambígua:
- Ora! São gênios! Gosta de arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é senhora de muita ordem. Masgosta, gosta de trabalhar. Às vezes basta-lhe ver um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É gênio. Tenho visto outras assim... E punha a cabeça de lado franzindo os beiços.
- O que ela é, é uma santa - repetiu Joana.
- É gênio! Está sempre numa labutação. Eu nunca saio sem deixar tudo
brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até noutro dia, lá embaixo a
passar a roupa... Eu ia a sair, pois tirei logo o chapéu, e não consenti... Olhe, quer diga? Falta de cuidados, não ter filhos... Que ela não lhe falta nada...
Calou-se, remirou o pé, e com satisfação:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.