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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenço para se assoar outra vez.

- Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... «Creia o digno par, que nunca este paiz retomará o seu logar á testa da civilisação, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de instrucção, nós outros os legisladores formos, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio...

- Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço.

Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel.

E o conde, quando elle se despediu, não se contentou com um simples aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe o seu querido Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez, movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do sophá - debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.

X

Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de chuva, - Carlos apeava-se d'um coupé de praça, que viera parar, de vagar, á esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos. Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor, perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.ª condessa de Gouvarinho.

A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a solidão da Patriarchal para se desembaraçar do calhambeque d'assento duro, onde durante a ultima hora suffocára, sem ousar descer as vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba...

Até ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fôra para o Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisação á provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas á treva catholica, purificando (como ella dizia) o tremedal papista... Já na escada havia um cheirinho adocicado e triste a devoção e a virgem velha: e no patamar pendia um largo cartão, com um distico em letras de ouro entrelaçadas de lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do Senhor! Carlos entrou, tropeçando logo n'um montão de Biblias. O quarto todo era um ninho de Biblias; havia-as ás pilhas por cima dos moveis, transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas, cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato, entaladas n'uma encadernação negra como n'uma armadura de combate, carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de cartonagens impressas em lettras de côr, irradiando versiculos duros da Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaças insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, á cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas quasi vasias de cognac e de gin. Carlos bebeu o gin da santa; e o leito rigido ficou revolto como um campo de batalha.

Depois a condessa começou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. Uma occasião em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas á porta atroaram a casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo á janella, viu um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mão, outras dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fôra a Borges quem mandára o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como tres avisos, tres rebates da Moral... Não quizera voltar mais ao beatifico cuté da titi. E n'essa tarde, como não havia ainda outro escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de praça.

(continua...)

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