Por Eça de Queirós (1878)
- Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimá-la toda a vida...
Aquelas palavras simples produziram um curto silêncio. Mas o Saavedra, reclinando-se, classificou uma tal opinião de burguesa; o casamento era um fardo; não havia nada como a variedade...
E Julião expôs dogmaticamente:
- O casamento é uma fórmula administrativa, que há de um dia acabar...
- De resto, segundo ele, a fêmea era um ente subalterno; o homem deveria aproximar-se delaem certas épocas do ano (como fazem os animais, que compreendem estas coisas melhor que nós), fecundá-la, e afastar-se com tédio.
Aquela opinião escandalizou a todos, sobretudo o Conselheiro, que a achou "de um materialismo repugnante".
- Essas fêmeas para quem é tão severo, Sr. Zuzarte - exclamava ele - essas fêmeas são nossasmães, nossas carinhosas irmãs, a esposa do chefe de Estado, as damas ilustres da nobreza...
- São o melhor bocadinho deste vale de lágrimas - interrompeu com fatuidade o Saavedra,dando palmadinhas sobre o estômago. Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; não havia nada como um pezinho catita! E a todas preferia a mulher espanhola!
O Alves votava pelas francesas; citava algumas do café-concerto, criaturas de fazer perder a cabeça!... - E injetavam-se-lhe os olhos.
O Saavedra disse com um trejeito hostil:
- Sim, para um bocado de cancã... Para o cancã não há como as francesas... Mas muito chupistas!
O Conselheiro afirmou ajeitando as lunetas:
- Viajantes instruídos têm-me afiançado que as inglesas são notáveis mães de família...
- Mas frias como esta madeira - disse o Saavedra batendo na mesa. - Mulheres de gelo! - Ereclamava espanholas! Queria fogo! Queria salero! Tinha o olhar brilhante do vinho; a comida acendia-lhe o sentimento.
- Uma bela gaditana, hem, amigo Alves?
Mas em presença dos doces que a Sra. Filomena dispôs sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: para os folhados, o Cocó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o Largo de São Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os olhos:
- Porque - dizia - o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por dentro a alma!
Era todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com solicitude, entre as confeitarias e os lupanares.
Saavedra e Julião discutiam a imprensa. O redator do Século gabava a profissão de jornalista quando a gente, já se sabe, tem alguma coisa de seu; mais tarde ou mais cedo apanhava-se um nicho, não é verdade? Depois as entradas nos teatros, a influência nas cantoras. Sempre se é um bocado temido... E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivência, dizia a Jorge:
- Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, de reconhecidailustração, discutir as questões mais importantes, e ver travada uma conversação erudita?... Parecem excelentes os ovos.
A Sra. Filomena, então, com solenidade, veio colocar-lhe ao pé uma garrafa de champanhe
O Saavedra pediu logo para abrir, porque o fazia com muito chique. E nas a rolha saltou, e, no silêncio que criou a cerimônia, se encheram os copos, O Saavedra, que ficara de pé, disse:
- Conselheiro!
Acácio curvou-se, pálido.
- Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, à saúde de um homem, que- e arremessando o braço, deu um puxão ao punho da camisa com eloqüência -, pela sua respeitabilidade, a sua posição, os seus vastos conhecimentos, é um dos vultos deste país. À sua saúde, Conselheiro!
- Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro!
Beberam com ruído. Acácio depois de limpar os beiços, passou a mão trêmula pela calva, levantou-se comovido, e começou:
- Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circunstância. Se a soubesse de antemão,teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lágrimas me vão embargar a voz...
Falou então de si, com modéstia: reconhecia, quando via na capital tão ilustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consumados estilistas; reconhecia que era um zero! - E com a mão erguida formava no ar, pela junção do polegar e do indicador, um 0: um zero! Proclamou o seu amor à pátria: que amanhã as instituições ou a família real precisassem dele - e o seu corpo, a sua
pena, o seu modesto pecúlio, tudo oferecia de bom grado! Queria derramar todo o seu sangue pelo trono! - E, prolixo, citou o Euriko, as instituições da Bélgica, Bocage e passagens dos seus prólogos. Honrou-se de pertencer à Sociedade Primeiro de Dezembro... - Nesse dia memorável - exclamou -, eu mesmo as minhas janelas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.