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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

A égua trotou - o velho correu, desengonçado, arquejando como um fole de forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do cativo, da lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar - entraria ele, num galope solto, o portão da Torre! Então bradou, com o sobrolho duro:

- Alto! Agora pode voltar para trás... Mas, antes: como se chama aquele seu lugar?

- A Grainha, meu Fidalgo.

- E você como se chama, e o rapaz?

O velho, com a boca aberta, esperou, hesitou:

- Eu sou João, o meu rapaz Manuel... Manuel Domingues, meu Fidalgo.

- Você naturalmente mente. E o outro malandro, de suíças louras?

Dum fôlego, o velho gritou:

- Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de Nacejas, que chamam o Caça-abraços, e que tanto me desencaminhou o rapaz...

- Bem! Pois diga lá a esses dois marotos que me atacaram a pau e a tiro, que não ficam quitessomente com a sova, e que agora têm de se entender com a Justiça... Ela lá irá! Largue!

Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho que abalara, forçando as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida estrada, galopou para a Torre.

E ia levado, galopando numa alegria tão fumegante, que o lançava em sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de galopar pelas alturas, num corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as nuvens lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam nele um verdadeiro Ramires, dos antigos na História, dos que derrubavam torres, dos que mudavam a configuração dos Remos - e erguiam esse maravilhoso murmúrio que é o sulco dos fortes passando! Com razão! com razão! Que ainda de manhã, ao sair da Torre, não ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solidão daquela casa térrea, quando o bruto das suíças louras lhe atira a sua injúria eis um não sei quê que se desprende dentro do seu ser, e transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido, e lhe enrija cada nervo de força destra, e lhe espalha na pele o desprezo e a dor, e lhe repassa fundamente a alma de fortaleza indomável... E agora ali voltava, como um varão novo, soberbamente virilizado, liberto enfim da sombra que tão dolorosamente assombreara a sua vida, a sombra mole e torpe do seu medo! Porque sentia que agora, se todos os valentões de Nacejas o afrontassem num rijo erguer de cajados - esse não sei quê, lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga! Enfim era um homem! Quando em Vila-Clara o Manuel Duarte, o Titó com o peito alto, contassem façanhas, já ele não enrolaria encolhidamente o cigarro encolhido, mudo não somente pela ausência desconsoladora das valentias, mas sobretudo pela humilhante recordação das fraquezas. E galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais belas. Para além dos Bravais, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora mais sua, e que uma afinidade nova fundada em glória e força o tornava mais senhor da sua Torre!

Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande, sempre cerrado, oferecia uma entrada triunfal com os dois pesados batentes escancarados. Ele atirou a égua para o meio do pátio, bradando:

- Oh Joaquim! Oh Manuel! Eh lá! um de vocês!

O Joaquim surgiu da calavariça, de mangas arregaçadas, com uma esponja na mão.

- Oh Joaquim, depressa! Aparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem! Creio que dei cabo de dois homens... Ficaram numa poça de sangue! Não digas que vais da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que sucedeu, se estão mortos!... Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavalariça escura. E de cima duma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:

- Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barrolo. Sem desmontar, sem surpresa ante a aparição do Barrolo, Gonçalo atirou logo para a varanda a história da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultara... Depois outro, que desfechou a caçadeira... E ambos derribados sob as patas da égua, numa poça de sangue...

O Barrolo despegou da varanda - e noutro relance, investia pelo pátio, com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo, desmontando, trêmulo agora do cansaço e da emoção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse rasgara a boca, decepara a orelha... Depois o outro, um rapazola, desfecha uma carabina... Ele corre, tão vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima duma pedra, como morto...

- Uma cutilada?

- Com este chicote, Barrolo! Arma terrível!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se não levo estechicote.

(continua...)

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