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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

A constituição turca, na verdade, fez uma grande impressão em toda a Rússia: humilhou-a. O Turco, o bárbaro, o infiel tinha uma constituição – essa alta expressão da civilização política – enquanto o Russo, o santo russo, vivia ainda sob o bel-prazer imperial. Toda a nação sentia isto amargamente; por se ter atrevido a dizê-lo, muito encapotadamente, o Golos foi suspenso por dois meses. Um certo estremecimento de independência e liberalismo percorreu todo o império – e o Governo sentiu bem que para distrair a atenção do interior era necessário fazer a guerra. E, com efeito, foi depois da constituição turca que a política russa se mostrou mais teimosa e, sob as suas aparências, mais ávida de conflito.

Não creio, porém, que propriamente na massa do povo russo houvesse um desejo pela guerra: a sua simpatia pelo irmão eslavo, se existe, é muito limitada, ou pelo menos o proletário russo sabe perfeitamente que o eslavo, sob o domínio turco, é mais feliz que ele sob o domínio do czar, e não se julga portanto obrigado a dar-lhe uma grande comiseração.

A burguesia, mais educada e sem grande ardor religioso, não vê na guerra senão uma oneração suplementar de impostos e de despesas. As conquistas e os aumentos territoriais são-lhe indiferentes: como é um zero no Estado, não lhe importa o engrandecimento do Estado.

Julgo, portanto, que se exagera grandemente o entusiasmo russo pela guerra santa. Não falo, naturalmente, no exército; e, todavia, no exército mesmo tem havido aparências de insubordinação: um regimento circassiano foi de repente mandado recolher à Rússia, por mostrar tendências rebeldes. Os regimentos circassianos estavam, diz-se, sob a persuasão de que se iam bater contra os húngaros, não contra os maometanos; quando, porém, viram realmente qual era o inimigo estavam mais dispostos a unir-se a ele que a combatê-lo. Outros actos desagradáveis têm sido praticados no exército russo: assim o comissário-geral dos Fornecimentos acaba de ser fuzilado sem processo. Este funcionário estimável introduziu na farinha tal quantidade de cal – que realmente não era possível deixar de lhe meter algumas balas no peito. Uma certa quantidade de cal na farinha, como uma certa quantidade de paucampeche no vinho – são procedimentos razoáveis, que dão honra, grandes proveitos e ordinariamente uma condecoração. Mas uma tal porção de cal que torna a farinha mais própria para pintar paredes que para fazer pão é realmente abusivo, e o Conselho de Guerra foi apenas justo dando àquele funcionário uma disponibilidade... na eternidade.

Continua-se aqui comentando com grande azedume o golpe de estado de Mac Mahon. Aquele acto importuno, violento, grosseiro na sua forma, tem provocado a reprovação da Europa inteira. É necessário realmente que os juizes sejam bem estreitos, a paixão partidária bem feroz, o bom senso bem pervertido – para que, em plena paz, em plena prosperidade, no meio do mais sábio trabalho de reorganização, se lance gratuitamente uma nação, ainda convalescente, nas agitações da incerteza e nos perigos da revolução.

A imprensa inglesa tem sido cruel para o marechal: debaixo das formas solenes do artigo de fundo inglês, conservadores e liberais dão claramente a entender que o marechal provou não ter nenhuma inteligência e ter muito pouca dignidade. O Economist, há dias, dizia que. «falando verdade o marechal não era inteiramente estúpido»... E esta é a concessão mais lisonjeira que lhe tem sido feita. O marechal, por aquele acto, de que tomou perante a França a responsabilidade exclusiva, preparou a sua queda. De facto, que ele obtenha do Senado a dissolução da câmara, ou que a câmara se dissolva por iniciativa da maioria – em definitivo, quem tem de dizer a última palavras é o país.

(continua...)

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