Por Eça de Queirós (1925)
Deste incidente da vida do Conde, que mais direi que o não saiba o País? É conhecido hoje (tanto o escândalo popularizou o episódio) que, obstinando-se na sua ingratidão, o alfaiate morreu pobre, sem nunca ter escrito a seu filho, que só o soube quando o velho se tinha enterrado. Mas o Sr. Carvalhosa, o deputado da oposição por Penafiel, com essa perfídia que inspira o despeito político, apenas teve conhecimento de que o velho expirava na miséria, apressou-se com pompa, com evidência, a ir-lhe a casa, levar-lhe um médico e enterrá-lo à sua custa. Para quê? Para que se pudesse imprimir nos jornais da oposição – que o Sr. Ministro deixara morrer o pai numa mansarda infecta e que fora o deputado da oposição quem, por misericórdia, lhe chegara aos lábios a última malga de caldo!
Eu vi o Conde chorar na intimidade da sua livraria. Lágrimas de raiva, que para outras não havia lugar. Aquela morte isolada, obscura, silenciosa, numa miséria voluntária, – era a vingança do pai! Deixava-lhe aquela vergonha permanente. Quem sabe mesmo se o alfaiate não teria combinado com a oposição toda aquela lúgubre cena, a enxerga, a aparição do Carvalhosa, a tumba de esmola!
– Ai, Zagalo – disse-me o Conde abraçando-me – o maior erro da minha vida foi nascer de semelhante pai!
E foi! Por isso o Conde, na sua severa justiça, deixou que o corpo do alfaiate repousasse na vala onde o levara a tumba de misericórdia.
Diante de Deus, como ele dizia, considerava-se filho de sua tia. E a ela, filialmente, elevara aquele belo monumento onde o Anjo chora sobre uma coluna truncada que sustenta um livro, símbolo da educação que facultara ao Conde, e uma pequena bolsa, emblema da fortuna em terras que por testamento lhe deixara.
Mas estas digressões necessárias (pois que, repito, eu não conto na sua disposição cronológica os episódios de tão ilustre existência, mas apenas dou, a traços largos, as feições essenciais da sua fisionomia histórica) trouxeram-me aos anos, não distantes, em que o Conde d'Abranhos viu, por assim dizer, Portugal a seus pés.
Volte pois o leitor comigo a essa formosa estrada do Porto, onde, numa liteira, acompanhado pelo procurador de sua tia, vai o nosso Alípio em direcção a Coimbra.
Os sete anos que aí viveu foram serenos e graves.
Muitas vezes o Conde me disse que a Universidade lhe fizera uma impressão profunda, não tanto como edifício – ainda que seja imponente aquele monumento no alto do monte, severo e isolado, como uma imutável fortaleza de vetusta ciência – mas sobretudo como Instituição. Eu confesso não ser talvez competente para avaliar estas questões de Ensino e de Educação. A pobreza de meus pais não me permitiu a honra vantajosa de ser bacharel, mas tendo convivido com tantos homens ilustres, eu sou como aquele antigo fabricante de ídolos, que, à força de viver entre eles, guardava nas mãos e na túnica alguma coisa do seu dourado. Além disso, neste assunto, como em todos, sigo, por admiração muda e reconhecimento correcto, as ideias e opiniões do Conde d'Abranhos.
A primeira vantagem da Universidade, como instituição social, é a separação que se forma naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles que vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz. A primeira, naturalmente, sendo o cérebro, governa; a segunda, sendo a mão, opera, e veste, calça, nutre e paga a primeira.
Dois mundos – como diz o nosso poeta Gavião – que se não podem confundir e que, vivendo à parte, com fins diferentes, caminham paralelamente na civilização, um com o título egrégio de Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica. Bacharéis são os políticos, os oradores, os poetas, e, por adopção tácita, os capitalistas, os banqueiros, os altos negociadores. Futricas são os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates... O Bacharel, tendo a consciência da sua superioridade intelectual, da autoridade que ela lhe confere, dispõe do mundo; ao Futrica resta produzir, pagar para que o Bacharel possa viver, e rezar ao Ser Divino para que proteja o Bacharel.
O Bacharel, sendo o Espírito, deve impedir que o Futrica, que é apenas a Matéria, aspire a viver como ele, a pensar como ele, e, sobretudo, a governar como ele. Deve mantê-lo portanto no seu trabalho subalterno, que é o seu destino providencial. E isto porque um sabe e o outro ignora.
Esta ideia de divisão em duas classes é salutar, porque assim, educados nela, os que saem da Universidade não correm o perigo de serem contaminados pela ideia contrária – ideia absurda, ateia, destruidora da harmonia universal – de que o futrica pode saber tanto como sabe o bacharel. Não, não pode: logo as inteligências são desiguais, e assim fica destruído esse princípio pernicioso da igualdade das inteligências, base funesta de um socialismo perverso.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.