Por Eça de Queirós (1925)
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancolicos, a face toda branca da frialdade fina d'Outubro, com uma das mãos mettida no bolso d'um velho paletot côr de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia cahindo com uma suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de carmim muito diluido em agua, e longe, sobre o mar, para além da linha escura dos pinheiraes, por traz de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguinea e orladas d'ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos — que o rapaz magro comparava ág flechas ricamente dispostas d'um tropheu luminoso, Na estação, havia apenas um passageiro esperando o comboio : era um mocetão do campo que se conservava immovel, encostado á parede, com as mãos nos bolsos, os olhos duramente cravados no chão ; ao lado, sentadas sobre uma arca nova de pinho, estavam duas mulheres, uma velha e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés, entre ellas, um sacco de chita e um pequeno farnel d'onde sahia o gargalo negro d 'uma garrafa,
O chefe da estação, gordo, com o queixo amar rado n'um lenço de sêda preta, o bonet de galão sujo posto muito ao lado, appareceu á porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para elle :
— Creio que o comboio vem atrazado . . ,
O chefe aftirmou silenciosamente com a cabeça, e depois d'uma fumaça :
— Vem sempre atrazado aos sabbados , a demora em Espinho.
O rapaz esteve um momento raspando o chão com a bengalinha— e foi andando devagar ao longo da plataforma. Reparava agora no moço do campo: de certo ia a Lisboa, embarcar para o Brasil ; e sensibilisado pela face tão desolada da velha, pensava que o Dmigrante daria um motivo tocante de poesia social, quadras de côr rica — os vastos azues do mar contemplados d'uma amurada de paquete, as noites saudosas, longe, n'uma fazenda do Brasil, quando a lua é muito clara e os engenhos estão calados . . . E aqui, no casebre da aldeia, os paes chorando á lareira e esperando o correio Entrevia mesmo os primeiros versos :
Eil-o que deixa o lar, a mãe chorosa,
Os verdes campos, o casal risonho . . .
Procurava a rima, já interessado, quando um sujeito baixote e bochechudo, de bonet escocez, appareceu na grade da estação, com uma chapeleira de papelão azul, a galhofar com duas raparigas que o seguiam, offerecendo ovos molles ou mexilhões para elle levar para Lisboa.
— A ti é que eu te levava, Mariquinhas ; queres tu vir ?
—fi já, snr. Joãozinho Vou buscar o snr. Padre Mendes, que nos casa aqui mesmo.
Mas o sujeito bochechudo avistou o rapaz magro, de paletot côr de pinhão, e exclamou :
Olá, sô Arthur ! Então tambem se vae até
Lisboa
O snr. Arthur sorriu :
Quem déra ! Não ; vim apenas esperar meu padrinho que vae de passagem para lá.
O outro puxon as calças para a cinta e disse, rindo :
— Homem essa! E vem o amigo d'Oliveira d'Azemeis aqui, para vêr passar seu padrinho no comboio ? . . .
— Então Para lhe apertar a mão, desejar-lhe boa viagem
— Diabo ! — disse o outro. — Já é ser bom afilhado ! . . . Eu não o fazia nem por meu pae. Pousou a chapeleira, petiscou lume e tirando uma fu maça do cigarro, continuou com satisfação : — Pois eu vou-me até á capital I Desenferrujar Se quizer alguma cousa — Que se divirta !
-— Fica por minha conta ! Ha-de-se encher este ventrezinho ! E então que vamos ter um rico ili verno em Lisboa I Sassi em S. Carlos, cancanistas francezas no Casino . . . Naturalmente fornada nova d'hespanholas . . . Não lhe digo mais nada . . .
Deu outro puxão ás calças e foi collocar com prudencia a chapeleira de papelão ao lado d'um gacco de tapete. Arthur seguia-lhe o dorso grosso, curvado sobre a bagagem, os quadris d'obeso sobre que estalava uma calça côr d'avelã ; e pensava com desconsolo, que era aque112 creatura endinheirada que ia para Lisboa, o Joãozinho Mendes, d'Ovar, a quem chamavam em Coimbra o Chouriço e era incapaz de comprehender um livro ou mesmo um dito ! E lembrava a noite em que o Taveira, no Carneiro, muito bebado, improvisava injurias ricas ao Joãozinho Mendes :
Lá na eterna Salgadeira,
Ensacando d'uma vez,
Dentro da tripa da Asneira,
Um naco gordo e roliço
Do lombo da Estupidez,
Fez-nos Deus este Chouriço t
O Taveira, com todo o seu genio, era um advogado pobre no fundo de Traz-os-Montes e o Chouriço, proprietario, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer . . . Aquelle bochechudo em Lisboa parecia-lhe semelhante a um lagarto de couve pousado sobre o mel d'um calice de madre-silva ; e esta comparação subtil, que o Chouriço nunca poderia ter inventado, consolou-o durante um momento da diversidade amarga da fortuna . . .
Mas um silvo penetrante de locomotiva cortou o ar calado e immediatamente o comboio appare. ceu, deslisando sobre os raits, dardejando ao alto jactos direitos de fumo branco.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.