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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

E, desde então, ele começou a fazer pouco a pouco todos os trabalhos domésticos. Através do longo inverno a serradeira não se moveu mais do canto da lareira, fiando na sua roca, com o gato agachado aos pés. Cristóvão ia encher a bilha à fonte, acendia a lareira, areava as panelas, polia as ferragens do armário, batia os colchões dos catres – e mesmo aos sábados, numa dorna cheia de água quente e cinza, fazia a barrela da roupa. E, em todos estes serviços, punha uma aplicação, um interesse profundo. Todo o seu imenso corpo se tornava mais ágil, mais pronto. Já dos seus grossos lábios, que só se alargavam num sorrir pasmado e morto, saíam murmúrios vivos: “Está bem! Ficou bem... Cristóvão limpou!”

À noite, à ceia, esfarelando com lentidão a broa no caldo, o lenhador contemplava com espanto o seu Cristóvão, que lhe parecia diferente, mais atento, desentorpecido, conhecendo já que ele abatia árvores numa floresta, que a égua branca, e as terras, e os gados que pastavam, pertenciam a um Senhor, e que aos domingos se descansava para visitar Deus na sua casa, onde os sinos cantavam no ar. Mas o que encantava o bom lenhador era o cuidado novo de Cristóvão em o servir – desejo que lhe nascera no coração de repente, sem que ninguém lá o semeasse. Mal o sentia subindo das terras, ia, com o seu andar embalado e lento, tomas as rédeas da égua, para a levar ao curral, onde a palha estava serrotada, e o balde cheio de água; na cabana, de joelhos, desapertava-lhe os cordões das grossas botas de couro, que a lama cobria; e estendia diante do lume, com cuidado o seu surrão de estamenha, trespassado das umidades da mata. O bom lenhador murmurava, radiante, como um bem-aventurado: “Foi Deus que te mandou, filho meu!” E nos olhos com que Cristóvão

lhe sorria, ele, apesar de rude e simples, percebia uma claridade, um brilho desacostumado. O seu inocente já pensava, já compreendia. Pálida e ainda hesitante, mas certa e de todo visível, uma almazinha despontava naquele corpo imenso, como uma pequena luz numa grande torre.

Depois da ceia, aproveitando o resto do candil, o lenhador tinha já o contentamento inefável de conversar com o seu filho, como outrora com a sua boa companheira – contar o seu duro dia na mata, a árvore que fora derrubada, as madeiras vendidas para as obras do Mosteiro, as queixas dos serradores contra o senhor senescal. O seu pobre lar perdia a frialdade e o silêncio, que até aí, engolido tristemente o caldo, o fazia estirar no catre viúvo; tão triste que até o ramalhar dos sobreiros lhe parecia como um gemer humano. Agora tinha um companheiro humano – e podia, com felicidade, começar a envelhecer.

Teve então orgulho do seu filho, desejou que aldeia o conhecessem. Cristóvão crescia sempre – e era já, antes dos dez anos, como um homem de grande corpo e de grande força, que conservasse, na face lisa e sem barba nem penugem, a candidez de uma criança, alta apenas como uma sebe. Um cabelo ruivo e encaracolado, que lhe nascia nas sobrancelhas cerradas, cobria-lhe a cabeça pequenina, como um barrete muito justo de lã de carneiro, até o pescoço. onde os músculos tinham a saliência, a rijeza, a amplidão dos de um touro. A boca larga constantemente se alargava mais num sorrir para tudo, de candidez e pasmo. E os seus olhinhos, pequeninos como contas azuis, tinham uma doçura que se derramava, em redor, como uma carícia vagarosa e compassiva. Todos os seus vastos membros se moviam com uma lentidão tímida: e, mesmo para descer à fonte ou contornar a sebe da horta, se acostumara a trazer um bordão, a que apoiava, quando parado, as duas mãos enormes, e por cima o queixo pesado, marcado com uma cova funda. De uma peça de camelão azul, que o pai há muito guardava na arca, o alfaiate dos pajens do castelo talhara-lhe um capuz de romeira, e um gibão direito como um saco que, franzido na cinta por uma tira de couro, caía em pregas longas e grossas sobre as botas escarlates, com relevos cosidos de cordovão amarelo. E, assim enroupado e limpo como um filho de mercador, o levava o pai todos os domingos, sorrindo de orgulho, pelos caminhos, à missa na aldeia.

(continua...)

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