Por Eça de Queirós (1878)
Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia "El-rei!" erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre "o nosso Garrett, o nosso Herculano". Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política: tinha composto os Elementos genéricos da ciência da riqueza e a sua distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão! Havia apenas meses publicara a Relação de todos os ministros de Estado desde o grande Marquês de Pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e óbitos.
- Já esteve no Alentejo, Conselheiro? - perguntou-lhe Luísa.
- Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir, porque medizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
- De resto, país de grande riqueza suma!
- Ó Jorge, averigua quanto é o partido da Câmara em Évora - disse Julião do canto do sofá.
O Conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
- Devem ser seiscentos mil réis, Sr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porque, Sr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?
- Talvez!...
Todos desaprovaram.
- Ah! Lisboa sempre é Lisboa! - suspirou D. Felicidade.
- "Cidade de mármore e de granito", na frase sublime do nosso grande historiador! - dissesolenemente o Conselheiro.
E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. D. Felicidade disse então:
- Quem não era capaz de deixar Lisboa nem à mão de Deus Padre, era o Conselheiro!
O Conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:
- Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta de alma!
- O Conselheiro - lembrou Jorge - nasceu na Rua de São José.
- Número setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegado àquela em que viveu, até casar, o meuprezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!
Geraldo, o seu pobre Geraldo era o pai de Jorge. Acácio fora o seu íntimo. Eram vizinhos.
Acácio tocava então rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo à Filarmônica da Rua de São José. Depois Acácio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca, os sentimentos ternos, os serões joviais da Filarmônica. Entregou-se todo à Estatística. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha vê-lo todos os domingos, e, no dia dos seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia de ovos.
- Aqui nasci - repetiu, desdobrando o seu belo lenço de seda da Índia - e aqui conto morrer.
E assou-se discretamente.
- Isso ainda vem longe, Conselheiro!
Ele disse, com uma melancolia grave:
- Não me arreceio dela, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de São João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.
- E já compôs o seu epitáfio, Sr. Conselheiro? - perguntou Julião, do canto, irônico.
- Não o quero, Sr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meuspatrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar: lá têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de Conselheiro - a data do meu nascimento e a data do meu óbito.
E com um tom demorado, de reflexão:
- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:
"Orai por ele!"
Houve um silêncio comovido, e à porta uma voz fina, disse:
- Dão licença?
- Oh, Ernestinho!... - exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rápido, Ernestinho veio abraçá-lo pela cintura:
- Eu soube que tu partias, primo Jorge... Como está, prima Luísa?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.