Por Eça de Queirós (1870)
— Eu!... para o roubar! Que infâmia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi,não o matei! — Que malditas contradições! — gritou o mascarado exaltado. A. M. C. objectou lentamente:
— O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o único amigo que ele conhecia em Lisboa?
— Como sabe? — gritou repentinamente o mascarado, toman do-lhe o braço. — Fale,diga.
— Por motivos que devo ocultar — continuou o homem — sa bia que este sujeito, que é estrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou há poucas semanas, vinha a estacasa...
— É verdade — atalhou o mascarado.- Que se encontrava aqui com alguém... — É verdade — disse o mascarado. Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das ideias perturbada, via apareceruma nova causa imprevista, temerosa e inexplicável.
— Além disso — continuou o homem desconhecido — há-de sa ber também que umgrande segredo ocupava a vida deste infeliz... — É verdade, é verdade — dizia o mascarado absorto. — Pois bem, ontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me queviesse ver se o encontrava...
Nós esperávamos, petrificados, o fim daquelas confissões.- Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel. E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada. — Leia — disse ele ao mascarado.Este aproximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.
Ergui o papel, li:
I declare that I have killed myself with opium. (Declaro que me matei com ópio). Fiquei petrificado. O mascarado dizia com a voz absorta como num sonho:- Não é possível. Mas é a letra dele, é! Ah! que mistério, que mistério!
Vinha a amanhecer. Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até amanhã.
VI
Peço-lhe agora toda a sua atenção para o que tenho de contar-lhe. A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruídos da povoação que desperta. A rua não eramacadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Também não era uma rua larga, porque o eco das carroças era profundo, cheio e próximo. Ouvia pregões. Nãosentia carruagens.
O mascarado tinha ficado numa prostração extrema, sentado, imóvel, com a cabeça apoiada nas mãos.O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encosta do no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido.Eu abri as portas da janela: era dia. Os transparentes e as per sianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candeeiros. Entrava uma luz lúgubre, esverdeada.
— Meu amigo — disse eu ao mascarado -, é dia. Coragem! É necessário fazer o exame do quarto, móvel por móvel.
Ele ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e àcabeceira uma pequena mesa redonda, cober ta com um pano de veludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um adredão de cetim encarnado. Tinha um só travessei ro largo, alto e fofo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vazio e umajarra com flores murchas. Havia um lavatório, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava umabengala grossa com estoque.
Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma parti cularidade significativa. O exame dela dava na verdade a per suasão de que se estava numa casa raramente habitada,visitada a espaços apenas, sendo um lugar de entrevistas, e não um interior regular.
A casaca e o colete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se nochão, ao pé da chaise-longue; o chapéu acha va-se sobre o tapete, a um canto, comoarremessado. O paletó estava caído ao pé da cama.
Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nembilhetes, nem papel algum. Na algibeira do colete estava o relógio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha de ouro, com dinheiro miúdo. Não se lhe encontroulenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de forno ópio; não apareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira dificuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicídio.Perguntei se não havia na casa outros quartos que comunicas sem com aquele aposento e que devêssemos visitar.
— Há — disse o mascarado -, mas este prédio tem duas entra das e duas escadas. Oraaquela porta, que comunica com os demais quartos, encontrámo-la fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu desta sala depois que subiu da rua e antesde morrer ou de ser morto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.