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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Entrou no seminário. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um pouco úmidos, as lâmpadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as batinas negras, o silêncio regulamentado, o toque das sinetas - deram-lhe uma tristeza lúgubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto bonito agradou. Começaram a tratá-lo por tu, a admiti-lo, durante as horas de recreio ou nos passeios do domingo, às conversas em que se contavam anedotas dos mestres, se caluniava o reitor, e perpetuamente se lamentavam as melancolias da clausura: porque quase todos falavam com saudade das existências livres que tinham deixado: os da aldeia não podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de cantigas e de abraços, as filas da boiada que recolhe, enquanto um vapor se exala dos prados; os que vinham das pequenas vilas lamentavam as ruas tortuosas e tranqüilas de onde se namoravam as vizinhas, os alegres dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim. Não lhes bastava o pátio do recreio lajeado, com as suas árvores definhadas, os altos muros sonolentos, o monótono jogo da bola: abafavam na estreiteza dos corredores, na sala de Santo Inácio, onde se faziam as meditações da manhã e se estudavam à noite as lições; e invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes - o almocreve que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao áspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforje escuro.

Da janela dum corredor via-se uma volta de estrada: à tardinha uma diligência costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do chicote, ao trote das três éguas, carregadas de bagagem; passageiros alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com eles para as alegres vilas e para as cidades, pela frescura das madrugadas ou sob a claridade das estrelas!

E no refeitório, diante do escasso caldo de hortaliça, quando o regente de voz grossa começava a ler monotonamente as cartas de algum missionário da China ou as Pastorais do senhor bispo, quantas saudades dos jantares de família! As boas postas de peixe! O tempo da matança! Os rijões quentes que chiam no prato! Os sarrabulhos cheirosos!

Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto enfastiado da tia coberto de pó-de-arroz; mas insensivelmente pôs-se também a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do gás e das voltas da escola, com os livros numa correia, quando parava encostado à vitrina das lojas a contemplar a nudez das bonecas!

Lentamente, porém, com a sua natureza incaracterística, foi entrando como uma ovelha indolente na regra do seminário. Decorava com regularidade os seus compêndios; tinha uma exatidão prudente nos serviços eclesiásticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo diante dos lentes - chegou a ter boas notas.

Nunca pudera compreender os que pareciam gozar o seminário com beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabeça baixa, textos da Imitação ou de Santo Inácio; na capela, com os olhos em alvo, empalideciam de êxtase; mesmo no recreio, ou nos passeios, iam lendo algum volumezinho de Louvores a Maria; e cumpriam com delícia as regras mais miúdas - até subir só um degrau de cada vez, como recomenda S. Boaventura. A esses o seminário dava um antegosto do Céu: a ele só lhe oferecia as humilhações duma prisão, com os tédios duma escola.

Não compreendia também os ambiciosos; os que queriam ser caudatários dum bispo, e nas altas salas dos paços episcopais erguer os reposteiros de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de ordenados, servir uma Igreja aristocrática, e, diante das devotas ricas que se acumulam no frufru das sedas sobre o tapete do altar-mor, cantar com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fora da Igreja: ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lajeadas o tlintlim dum sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um chapéu desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas largas eiras cheias de medas, apear à porta das adegas! E, a não ser alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdócio ou aos destinos seculares, queriam deixar a estreiteza do seminário para comer bem, ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.

Amaro não desejava nada:

- Eu nem sei, dizia ele melancolicamente.

(continua...)

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