Por Eça de Queirós (1925)
Godofredo ficou a olhar para ele, com os lábios trêmulos, sem poder soltar as palavras que lhe estrangulavam a garganta. Era como um horror, de dizer alto, ali, mesmo a um sogro, como a tinha encontrado, nos braços do outro. E, diante deste silêncio. Neto exaltava-se mais, triunfando:
— É necessário provar! A lei pede o flagrante... O senhor não viu nada, não apanhou uma carta...
Toda a cólera de Godofredo fez explosão:
— Cartas infames, senhor. Cartas obscenas, senhor! Sabe o que lhe dizia, que queria Ter um filho dele! Um filho, que eu havia de vestir, de sustentar, de estimar, de educar... Um Filho! E aqui está a educação que o senhor deu à sua filha....
Neto ficara cabisbaixo. A filha não lhe falara de cartas. Passou a mão pelas duas repas da calva com um ar atrapalhado, e murmurou depois dum grande silêncio:
— As mulheres, quando lhes chega a veneta, escrevem cousas sem tom nem som...
Godofredo não respondeu. Passeava pela sala, com as mãos nos bolsos; e sobre a mesa, o seu prato ainda com arroz, ficava esquecido e arrefecendo. Neto então bebeu um grande copo. E subitamente, como tomando uma grande resolução, dizendo a coisa suprema que ali trouxera, exclamou:
— Mas enfim, de que quer o senhor que ela viva? Eu não tenho para vestir, nem para a calçar?...
Godofredo parou logo, no seu lúgubre passeio. Esperava aquilo, estava preparado, tinha a sua resposta, em que pôs um tom de dignidade, de homem superior às misérias do dinheiro:
— Enquanto sua filha estiver em casa de seu pai, e se portar bem, tem trinta mil réis pôr mês.
A calva do Neto iluminou-se: e pareceu subitamente satisfeito, toda a sua cólera desapareceu.
— É razoável, é razoável – disse ele num tom quase enternecido.
Depois os dois homens ficaram calados como se não tivessem mais nada a
dizer......
Godofredo tocou a campainha: a criada correu, dardejando desde a entrada um olhar a um e a outro.
— O café – disse Alves.
— E uma chávena para mim, senhora Margarida – disse o Neto retomando na casa a sua familiaridade de sogro.
Godofredo continuava passeando na sala... Neto sentara-se à mesa, e preparava cuidadosamente um cigarro, dando de vez em quando um olhar de lado de lado ao genro. E levou uma eternidade a preparar o cigarro: enrolou-o gordo e liso, depois metendo a onça na algibeira, para tirar a isca, exclamou, com um vago suspiro.
— O pior é o falatório!
Godofredo não disse nada, o outro petiscou lume, acendeu pausadamente o cigarro.
— E a você, na sua posição, na praça, não lhe faz senão mal...
Godofredo voltou-se impaciente.
— E de quem é a culpa?
Pois bem... Mas enfim, o melhor seria evitar o falatório. Pelo menos naqueles primeiros tempos...
Margarida entrou com o café. Godofredo sentara-se. E remexendo o açúcar, um diante do outro, o genro e o sogro, estiveram um momento calados. Neto provou o café, deitou-lhe ainda mais açúcar. Depois deu duas fumaças. E voltou à sua idéia:
— Nem para você, nem para mim, é bom que se ponham pôr aí a falar.
Então aquelas lentidões, aquelas pausas irritaram Godofredo.
— Mas que diabo! Que quer que eu lhe faça?
Mas Neto conservava agora o seu ar calmo e refletido. E com uma voz tranqüila falou dos seus sentimentos. Ele sempre se tivera pôr bom pai; e, se não fossem as circunstâncias em que estava, não teria aceitado mesada para sua filha... Não teria exigido nada. Levava-a para casa, lá viveriam todos, e acabou-se... E tudo o que fosse necessário para fazer cessar o escândalo fá-lo-ia à sua conta.
Godofredo começava a perceber. O Neto tinha uma outra idéia para apanhar dinheiro : e ele quis logo as coisas claras.
— Vamos lá a saber, sem mais circunlóquios, o que o senhor pensa.
Mas o Neto continuou com circunlóquios. O melhor meio de evitar o escândalo. O melhor meio de evitar o escândalo era sair de Lisboa. E a estação favorecia-os, era o tempo de ir para banhos, ninguém se admiraria que ele fosse pôr exemplo para a Ericeira levando sua filha casada. Todo o mundo suporia que Alves não podia acompanhá-la, nem deixar os seus negócios... Mas ninguém sabia se ele ia ou não ver sua mulher todas as semanas. A idéia era famosa, mas... Godofredo interrompeu-o:
— Mas quer que eu lhe dê o dinheiro para isso...
— A não ser que eu o vá roubar – ajuntou o outro muito francamente.
Godofredo refletiu. Havia ali uma maneira hábil de ir passar o verão para a praia, à custa dele; mas ao mesmo tempo a idéia era prática, matava o falatório. Aceitou. E num instante regularam os detalhes. Para o aluguel da casa na Ereceira, jornadas, transporte de alguma mobília, o Godofredo dava trinta libras; e nos meses de agosto, setembro e outubro, a mesada à filha, para despesas de praia, seria elevada a cinqüenta mil réis. E apenas dissera isto, ergue-se, querendo pôr todos os modos cessar aquela entrevista.
— E não falemos mais nisto, que tenho a cabeça em água.
Estava com efeito pálido como um morto, com um começo de enxaqueca, um desejo de se deitar, de adormecer pôr muito tempo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.