Por Eça de Queirós (1900)
E todavia não se despegava do espelho, numa contemplação agradada, recordando mesmo a recomendação da tia Louredo, em Lisboa: -"Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto, não se enterre na província! Lisboa está sem rapazes. Precisamos cá um bom Ramires!" - Não! Não se enterraria na província, imóvel sob a hera e a poeira melancólica das coisas imóveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante em Lisboa, entre a sua parentela histórica, como a agüentaria com o conto e oitocentos mil réis de renda que lhe restava, pagas as dívidas do papá? E depois realmente vida em Lisboa só a desejava com uma posição política - cadeira em São Bento, influência intelectual no seu Partido, lentas e seguras avançadas para o Poder. E essa, tão docemente sonhada em Coimbra, nas fáceis cavaqueiras do Hotel Mondego - muito remota a entrevia! Quase inconquistável, para além de um muro alto e áspero, sem porta e sem fenda!... Deputado - como? Agora, com o horrendo S. Fulgêncio e os Históricos no Ministério durante três gordos anos, não voltariam Eleições Gerais. E mesmo nalguma Eleição Suplementar que possibilidade lograria ele, que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma elegância de tradições, se manifestara sempre Regenerador, no "Centro" da Couraça, nas Correspondências para a Gazeta do Porto, nas verrinas ardentes contra o chefe do Distrito, o Cavaleiro detestável?... Agora só lhe restava esperar. Esperar, trabalhando; ganhando em consistência social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu imenso nome histórico, uma pequenina nomeada política; tecendo e estendendo a malha preciosa das amizades partidárias desde Santa Irenéia até ao Terreiro do Paço... Sim! eis a teoria esplêndida: - mas consistência, nomeada, afeições políticas, como se conquistam? "Advogue, escreva nos jornais!" fora o conselho distraído e risonho do seu chefe, o Braz Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não podia, com aquele seu horror ingênito, quase filosófico, a autos e papelada forense. Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha fácil para o neto adorado da Sra. D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil pipas de vinho nos barracões de Gaia. Batalhar num jornal de Lisboa? Nessas semanas de Capital, sempre pelo Banco Hipotecário, sempre com as primas. nem formara relações duráveis e úteis nos dois grandes Diários Regeneradores, a Manhã e a Verdade... De sorte que. realmente, nesse muro que o separava da fortuna só descobria um buraquinho, bem apertado mas serviçal - os Anais de Literatura e de História, com a sua colaboração de Professores, de Políticos, até de um Ministro, até de um Almirante, o Guerreiro Araújo, esse tocante maçador. Apareceria pois nos Anais com a sua Torre, revelando imaginação e um saber rico. Depois. trepando da Invenção para o terreno mais respeitável da Erudição, daria um estudo (que até lhe lembrara no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre as
"Origens Visigóticas do Direito Público em Portugal..." Oh, nada conhecia, é certo, dessas Origens, desses Visigodos. Mas, com a bela História da Administração Pública em Portugal que lhe emprestara o Castanheiro, comporia corrediamente um resumo elegante... Depois, saltando da Erudição às Ciências Sociais e Pedagógicas - por que não amassaria urna boa "Reforma do Ensino Jurídico em Portugal" em dois artigos maçudos, de Homem de Estado?... Assim avançava, bem chegado aos Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal literário, até que os Regeneradores voltassem ao Ministério, e no muro se escancarasse a desejada porta triunfal. - E no meio do quarto, em ceroulas, com as mãos nas ilhargas, Gonçalo Mendes Ramires concluiu pela necessidade de apressar a sua Novela.
- Mas, quando acabarei eu essa Torre? Assim emperrado, sem veia, com o fígado combalido?...
O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabelo branco todo encarapinhado, muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrara vagarosamente, segurando a infusa d'água quente.
- Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um pó branco? E um remédio inglês que me deu o Sr. Dr. Matos... Tem um rótulo em inglês, com um nome inglês, não sei que, fruit salt... Quer dizer sal de frutas...
O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no quarto de lavar, em cima do baú vermelho, ficara um frasco com pó, embrulhado num pergaminho antigo como os do Arquivo.
- É esse! - declarou Gonçalo. - Eu precisava em Lisboa uns documentos por causa daquele malvado foro de Praga. E por engano, na balbúrdia, levo do Arquivo um pergaminho perfeitamente inútil! Vai buscar o rolo... Mas tem cuidado com o frasco!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.