Por Eça de Queirós (1901)
Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente comunhão com todas as funções da Cidade (Jacinto com efeito era presidente do Clube da Espada e Alvo; comanditário do jornal O Boulevard; diretor da Companhia dos Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do Comitê de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc. ). Nenhuma destas ocupações parecia porém aprazível ao meu amigo – porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos, freqüentemente arremessava para o tapete numa rebelião de homem livre aquela agenda que o escravizava. E numa dessas manhãs (de vento e neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa murcha – descobrí que o meu Jacinto devia depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir pôr fidelidade a uma votação no clube; acompanhar Madame de Oriol a uma exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao ecarté... E ainda se acavalavam outras indicações, escrevinhadas pôr Jacinto a lápis: - “Carroceiro – Five-o’clock dos Efrains – A pequena das Variedades – Levar a nota ao jornal...” Considerei o meu Príncipe. Estirado no divã, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.
Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava pôr ele, com impaciência, quase com cólera, como pôr um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossos pijamas de pelúcia cor de ouro velho, constantemente saía ao corredor a cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que pertencia decerto aos Telefones de Constantinopla), era temeroso – todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola duma peliça puída, como da abertura dum covil, dois olhinhos torvose de rapina. Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa salva... depois eram fornecedores de Indústria e de Arte; negociantes de cavalos, rubicundos e de paletó branco; inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição “única”, quase inverossímil, de Ulrich Zell ou do Lapidanus. Jacinto circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que surdia das sombras da antecâmara, estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu castigo!
Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico ressoava, chamando ao almoço. Com o Fígaro ou as Novidades abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada, consultando o relógio, exalando com a face moída o seu queixume eterno:
-Que maçada! E depois uma noite abominável, enrodilhada em sonhos... Tomei sulfonal, chamei o Grilo
para me esfregar com terebintina... Uma seca!
Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, pôr mais engenhoso, o seduzia; - e, como através do
seu tumulto matinal fumava incontáveis cigarrilhas que o ressequiam, começava pôr se encharcar com um imenso copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada dum conhaque raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa. Depois, à pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta; - e reclamava impacientemente o café, um café de Moca, mandado cada mês pôr um feitor do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele remexia com um pau de canela! -E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?
-Eu?
Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas cavas do colete:
-Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau da canela, rebuscava através da numerosa Civilização da cidade uma ocupação que me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposição, ou uma Conferência, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolado:
-Pôr fim nem vale a pena, é uma seca!
Acendia outra das cigarrilhas russas, onde rebrilhava o seu nome, impresso a ouro na mortalha. Torcendo,
numa pressa nervosa, os fios do bigode, ainda escutava, à porta da Biblioteca, o seu procurador, o nédio e majestoso Laporte. E enfim, seguido dum criado, que sobraçava um maço tremendo de jornais para lhe abastecer o cupé, o Príncipe-Ventura mergulhava na Cidade.
Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o céu de Março nos concedia
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.