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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Compuzera aquella noticia sobre o drama para o consolar da perda do folhetim sobre os versos e, orgulhoso do « achado » — a idéa da offerta do drama ao Rei, ou á Rainha—repetia com os olhos bri-

lhantes :

—É catita ! de chupeta !

Arthur, embaraçado, disse :

— Mas não é verdade, homem ! Póde-se suppôr que é o Rei.

Está claro que se suppõe ! P'ra isso é que eu escrevi ! Faz um effeitarrão !

— Mas se o Rei sabe . . . abusar.

O outro teve um grande movimento d'hombros : — Ora sebo ! Nem elle sabe, nem s'importa ! se fôr necessario, você dedica-lh'o ! Faz um effeitar• rão... Não ha emprezario que o não queira levar...

Arthur, no meio da sua vaidade satisfeita, tinha uma vaga contrariedade. Que diriam os republica nos, vendo-o assim designado como g o menino bonito» da alta sociedade, fazendo dedicatorias aos tyrannos ? Torceu o bigode, parecia assustado.

— Ainda você não está contente ! — exclamou Melchior, despeitado d'aquelle acolhimento cheio d'embaraço a uma local que devia ser recebida com exclamações victonosas.

Arthur disse :

—Não, estou. Estou penhorado, Melchior, mas.

— Mas quê, com mil diabos ! E esta ?

—É que tenho amigos . . . O Nazareno, o Ma• thias . . . Parece uma traição

A face de Melchior tornou-se grave :

— Você vai por um mau caminho, Arthur. — sem o deixar fallar, com uma verbosidade repen• tina, continuou : — Você se se mette com essa gente está perdido. Eu conheço Lisboa. São muito mal vistos. Se você quer furar e que se falle de si, que se lhe represente o drama e tratar com gente fina, deve deixar essa cambada. Que é que elles lhe podem dar t Divertimentos Onde . . . Empregos Que é d'elles . . . Posição Nicles ' Leval-o á sociedade t Olha quem, os pelintras ! Então p'ra quê f Você póde aspirar a muito : é o que diz o Saavedra. Mas é necessario estar com a gente decente. Veja você : porque não apanhou você o fo• Lhetim no Secuto ? Por causa d'essas historias de

Odes á Liberdade, e Marselhezas e toda essa chol-

dra ! Você tem dinheiro, não é verdade ? P 'ra que se ha-de metter com maltrapilhos ? O Quee elles querem é exploral-o, homem ! .

Arthur escutava-o, abalado.

—E além d'isso — ia dizendo Melchior

Um creado entrou com uma carta para Arthur, Era um simples cartão de visita :

D. JOANNA CANDIDA DE MENEZES COUTINHO a agradecer o delicioso volume de versos.

Um rubor de orgulho espalhou-se-lhe no rosto. Estendeu o cartão a Melchior, que exclamou com o impeto alegre de quem, combatendo, se apossa d'uma arma nova :

— Ahi tem você ! Vê ? Se ella soubesse que você pertence á canalha do Mathias, recambiava-lhe o livro, tão certo como eu estar aqui.

— Foi muito amavel — disse Arthur, relendo as palavras escriptas no cartão. E revia a sala de D. Joanna Coutinho, as toilettes de sêda, os homens de casaca : alli apreciava-se a poesia amorosa, elegante —e pensava em Nazareno, habitando n'um quinto andar, com uma sobrecasaca coçada, relações pulhas, os dedos queimados do cigarro e hostil ao lyrismo. E aquelle simples agradecimento de D. Joanna apparecia-lhe como uma porta que se abria sobre a Sociedade e d'onde sahiam aquellas emanações de luxo, d'amores patricios, de graças femininas que intimamente o captivavam sempre. O Melchior, que diabo, tinha talvez razão. .Disse-lh'o.

— Está claro que tenho ! —E retorcendo o bi at gode approximou-se da varanda.

Mas teve logo uma exclamação e com um grande! gesto para Arthur :

— Pst ! Venha cá, homem, venha depressa !

Arthur correu : viu apenas uma tipoia, que descia o Chiado a trote largo, com duas cabeças cobertas de mantilhas á hespanhola.

— Era a Concha — fez Melchior, dando uma pu nhada no peitoril da varanda. — Que linda que ia ! E a Paca . . . Oh, menino ! —E exaltado : —- Qner você uma cousa? Vamos ao Dáfundo com ellas.

Hein

E brilhavam-lhe os olhos.

Arthur teve um impeto de mocidade, de ardor ; disse vivamente :

— Valeu !

— Caramba . — fez o outro. B de certo para se preparar á excitação nocturna, reclamou uma gotinha de Cognao.

O mesmo creado entru com outra carta para Arthur.

—É o dia das cartas — disse elle, com uma vaidadezinha.

E de repente, teve a idéa, pela letra que não conhecia, que era da baroneza : a alegria das SfiüS feições foi tio clara que Melchior perguntou, com os olhinhos vivos :

— Cartinha d'amor ?

Era de Nazareno. Dizia que ao outro dia, ás 9 horas da noite, Mathias lia, o seu grande trabalho. « Sem falta, caro concidadão !

Arthur metteu a carta no bolso affectando discreção.

— Rendez•vouzinho, hein ? — fez Melchior, já invejoso.

Arthur julgou não mentir, dizendo :

— Rendez-couzinho, p'ra ámanhü !

— Seu felizão ! — fez o outro — E para occultar o despeito, emborcou o calice de Cognac com o seu chic especial, atirando-o d'um golpe para as guelas. Estalou com a lingua e pousando o copo :

— Hoje andaluza, ámanhã baroneza ! Veja se a republica lhe dá d'essas pechinchas !

E Arthur sorria, torcendo com fatuidade o bigode.

(continua...)

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