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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Contou-lhe então uma história difusa que ia forjando laboriosamente, segundo as sensações que imaginava ver na face pasmada do sineiro. A rapariga desgostara-se da vida, com as desavenças que tivera com o noivo. Mas a mãe que estava velha, que a necessitava para o governo da casa, não queria consentir, supondo que era uma veleidade... Mas não, era vocação... Ele sabia-o... Infelizmente, quando havia oposição, a conduta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornais ímpios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influências do clero... As autoridades, mais ímpias que os jornais, punham obstáculos... Havia leis terríveis... Se soubessem que ele andava a instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o tio Esguelhas?... Impiedade, ateísmo do tempo!

Ora, ele necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferências: para a experimentar, para conhecer as suas disposições, ver bem se é para a Solidão que ela tem jeito, ou para a Penitência, ou para o serviço dos enfermos, ou para a Adoração Perpétua, ou para o Ensino... Enfim, estuda-la por dentro e por fora.

- Mas onde? exclamou, abrindo os braços como na desolação de um santo dever contrariado. Onde? Em casa da mãe não pode ser, já andam desconfiados. Na igreja impossível, era o mesmo que na rua. Em minha casa, já vê, menina nova...

- Está claro.

- De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que você mo há-de agradecer... pensei na sua casa...

- Oh, senhor pároco, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, está tudo às ordens!

- Bem vê, é no interesse daquela alma, é um regozijo para Nosso Senhor...

- E para mim, senhor pároco, e para mim!

O que o tio Esguelhas receava é que a casa não fosse decente e não tivesse as comodidades...

- Oral fez o padre sorrindo, num renunciamento de todos os confortos humanos. Contanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da oração...

De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como sítio retirado e casa sossegada estava a preceito. Ficavam ali, ele e a menina, como os monges no deserto. Nos dias em que o senhor pároco viesse, ele saía a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam acomodar-se, porque o quartito da pobre Totó era ao pé... Mas tinham o quarto dele, em cima.

O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não se lembrara da paralítica!

- Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.

Mas o sineiro tranqüilizou-o, vivamente. Estava agora todo interessado naquela conquista de uma noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu telhado abrigasse a santa preparação da alma da menina... Talvez lhe atraísse a ele a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades da casa. A Totó não embaraçava. Não se mexia da cama. O senhor pároco entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...

- E ela que faz, a Totó? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.

Coitadita, para ali estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e apaixonava-se por elas a ponto de ter febre; outros dias passava-os num silêncio medonho com os olhos cravados na parede. Mas às vezes estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!

- Devia-se entreter, devia ler, disse o padre Amaro para mostrar interesse.

O sineiro suspirou. Não sabia ler, a pequena, nunca quisera aprender. Era o que ele lhe dizia - se pudesses ler, já te não pesava tanto a vida! Mas então? Tinha horror a aplicar-se... O Sr. padre Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...

Mas o pároco não o escutava, todo abismado numa idéia que lhe alumiara a face dum sorriso. Achara subitamente a explicação natural a dar à S. Joaneira e às amigas das visitas de Amélia a casa do sineiro: era a ensinar a ler a paralítica! A educá-la! A abrir-lhe a alma às belezas dos livros santos, da história dos mártires e da oração!...

- Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mãos de júbilo. É em sua casa que se háde fazer da rapariga uma santa. E disto - e a sua voz deu um grave profundo - um segredo inviolável! - Oh, senhor pároco! fez o sineiro, quase ofendido.

- Conto consigo! disse Amaro.

Veio logo à sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a Amélia, em que lhe explicava detalhadamente o "arranjinho que fizera para gozarem novas e divinas felicidades". Prevenia-a que o pretexto para ela vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educação da paralítica: ele mesmo o proporia à noite, em casa da mamã. "Que nisto, dizia, há alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com uma boa instrução religiosa as trevas daquela alma. E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!"

(continua...)

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