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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur galgou a calçada do Correio, fanando alto d'indignação. Na sua necessidade de desaba far, de rugir, correu ao quarto de Nazareno. o encontrou. Então foi sentar-se para o Passeio, debaixo d'u-ma arvore, e alli ficou ruminando a sua colera. Uma grande doçura parecia cahir do alto azul, purissimo ; o rumor da cidade chegava por fragmentos abafados, como se ficasse preso, enleado nas ramagens meias despidas. Um jardineiro regava. E na rua onde a areia reluzia ao sol tepido, duas creanças muito louras corriam, vigiadas por uma ingleza vestida de verão, de lunetas azues, que lia n'um banco, com um King Charles no regaço. Mas aquella paz de jardim burguez não o calmou. O mundo official, de que o SecuZo era a expressão litteraria, parecia-lhe agora vil, d'uma villeza pequena, piegas, com alguma cousa de senil e d'estupido : nunca se sentira Fio decidido a servir as idéas de Nazareno ! O seu livro, agora, repelido, igno rado da imprensa, parecia-lhe sublime, A recusa do Saavedra, attribuia-a á inveja, talvez á influencia inimiga do Roma. E pensava em cousas vagas que faria, que escreveria, para provar a sua força, fazer sentir a importancia do seu talento . . . Mas pouco a pouco, no amollecimento que lhe dava aquelle tepido meio-dia d'inverno, veio-lhe como que a indefiuida consciencia da sua inhabilidade para a lucta : necessitaria ter uma amizade forte ou um amor inspirador, apoiar-se a alguma cousa de duradouro, de consolador . . . O quê 61 E as duas creanças. correndo, brancas e côr de rosa, frescas como flÔres, appetitosas como fructas, dando-lhe vagos desejos de patern.idade, fizeram-no pensar na familia, n'uma casa bonita, toda sonora de risos de creanças, onde o frou-frou d'um vestido puzesse no ar ambiente uma ternura subtil. Lembrou-lhe a filha do Carneiro. Pouh ! Usava uma cuia postiça e nunca poderia comprehender as necessidades do seu espirito nem as bellezas dos seus versos. Depois, a provincia aterrava-o. Mas Lisboa impacientava-o já. E vinha-lhe como que uma desconsolação de tudo, uma sensação de mal-estar : bocejou enormemente, ergueu-se, foi arrastando os passos, enfastiado, até ao Hotel. Já nem se sentia indignado contra o Saavedra, porque na sua natureza lympbatica tudo se amollecia, fenecia depressa — indignação ou enthusiasmo — como n'um ar sem oxygenio todas as plantas se estiolam.

Á noite, no Martinho, contou tranquillamente

a Nazareno a resposta do Saavedra. O republicano fez-se pallido de raiva e a sua indignação, exprimindo-se com violencia, chegou a despertar, a aquecer de novo a colera d'Arthur. Tudo provinha d'elles não terem um jornal . . . Um jornal fal-os-ia respeitados, temidos, dar-lhes-ia uma voz, uma po sição

—E onde está o dinheiro ? — exclamou Naza reno.

Arthur, pensando no seu conto de réis, lá na provincia, na burra do Carneiro, calou-se, encolhendo os hombros.

Contou então ao Nazareno, como para o conso lar e mostrar bem a sinceridade do seu despeito, que o Saavedra recusara tambem a inserção d'•am folhetim sobre os Esmaltes. Nazareno, porém, não parecia a Arthur bastante indignado :

— Pois não lhe parece uma grande maroteira, Nazareno

O outro fez um vago gesto d'assentimento e de pois d'uma pausa :

— O Mathias já folheou o seu volume. Acha-o muito erotico . . .

Arthur mordeu os labios e voltou para o Hotel desesperado com aquella opinião. Que entendia o parvo do Mathias de versos e d'e:tylos! Aquella tendencia de querer reduzir toda a Arte. mesmo a Poesia, a um auxiliar subalterno d'ambigües politicas, parecia-lhe d'espiritos estreitos, egoistas. E deitou-se descontente do Saavedra, do Mathias, de Lisboa, de si, da vida.

Acabava de almoçar na manhã seguinte, quando Melchior appareceu com uma face radiante. Atirou um numero do Seculc para cima da mesa, exclamando :

— Ora receba lá esse presentinho !

Que surpreza ! Era uma noticia, a primeira, que dizia :

«O illustre auctor dos Esmaltes e Joias, que tanta sensação têm causado, o nosso prezado ami« go Arthur Corvello, muito conhecido na nossa so ciedade aristocratica onde as suas maneiras, o seu espirito, o tornam alvo das maiores attenções, tem emfim terminado o seu grande drama Amo« res de Poeta, gue brevemente será representado n'um dos nossos primeiros theatros. O drama, que « por alguns trechos que ouvimos nos parece pri morosamente escripto, é um estudo de costumes da alta sociedade e por assim dizer um protesto contra as theorias subversivas, que, aquelles que em Portugal pretendem introduzir as idéas repu blicanas, espa,lbam para destruir a familia, a reli gião, a elegancia e tudo o que constitue o patri monio da gente bem educada. Os Amores de Poeta

são dedicados a um Augusto Personagem. O pu a blico eapera anciosamente este debute theatral do a inspirado vate

Arthur, attonito, exclamou com os olhos muito abertos para Melchior :

— Ora essa . . . Dedicado a um Augusto Personagem

Hein . — exclamou o outro com triumpho — É bem jogada, hein ? É um achado ! É catita ! Que lhe parece ?

(continua...)

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