Por Eça de Queirós (1878)
- Não o sabia carola, Conselheiro!
Acácio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu:
- Eu peço ao meu Saavedra que não tire desse fato ilações erradas. Os meus princípios sãobem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio...
- Para os que o precisam... - interrompeu Julião.
Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdito respondeu, devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio:
- Não o precisamos nós decerto, que somos as classes ilustradas. Mas precisa-o a massa dopovo, Sr. Zuzarte. Senão veríamos aumentar a estatística dos crimes.
E o Saavedra do Século, erguendo as sobrancelhas, com a fisionomia muito séria:
- Pois olhe que diz uma grandíssima verdade. - Repetiu a máxima, modificando-a: - A religião é um bridão! - Fazia com o gesto o esforço de conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava.
O Conselheiro continuava, explicando:
- Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas litografias ou gravuras, alusivas ao mistérioda Paixão, têm o seu lugar num quarto de cama, e inspiram de certo modo sentimentos cristãos. Não é verdade, meu Jorge?
Mas o Saavedra interrompeu ruidosamente, com a face acesa numa jovialidade libertina:
- Eu, num quarto de dormir, as únicas pinturas que admito são uma bela ninfa nua, ou umabacante desenfreada!
- Isso, isso! - bradou o Alves Coutinho. A boca dilatava-lhe numa admiração sensual. - EsteSaavedra! Este Saavedra! E baixo para Sebastião: - Tem um talento! Tem um talento!
O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o estômago:
- Espero que não sejam esses os painéis imorais que se vêem no seu gabinete de estudo...
Julião emendou:
- No meu cubículo. Ah! Não, Conselheiro! Tenho apenas duas litografias - uma é um homemsem pele para representar o sistema arterial, o outro é o mesmo indivíduo igualmente sem pele para se ver o sistema nervoso.
O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e exprimiu a opinião - que na Medicina, aliás uma grande ciência!, havia coisas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos teatros anatômicos, os estudantes de idéias mais avançadas levavam o seu desprezo pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros humanos, pés, coxas, narizes...
- Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro! - disse Julião, enchendo o copo. - É matériainerte!
- E a alma, Sr. Zuzarte? - exclamou o Conselheiro. Fez um gesto de vaga reticência; e julgandotê-lo aniquilado com aquela palavra suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortês e protetor: - E que diz o nosso bondoso Sebastião?
- Estou a ouvir, Sr. Conselheiro.
- Não dê ouvidos a estas doutrinas! - Com o garfo mostrava a figura biliosa de Julião. Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o nosso Jorge (o que é de lamentar num homem estabelecido e empregado do Estado) também vai um pouco para estas exagerações materialistas!
Jorge riu; afirmou que sim, que tinha essa honra...
- Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de Matemática, acredite quehá almas que vivem no céu, com asinhas brancas, túnicas azuis, e tocando instrumentos?
O Conselheiro acudiu:
- Não, instrumentos não! - E como apelando para todos: - Não creio que tivesse falado eminstrumentos. Os instrumentos são uma exageração. São, podemos dizê-lo, táticas do partido reacionário...
Ia fulminar a doutrina ultramontana - mas a Sra. Filomena colocou-lhe diante a travessa com a perna de vitela assada. Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solenidade, foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na aplicação de uma função grave. Então Julião, pousando os cotovelos sobre a mesa e escabichando os dentes com a unha, perguntou:
- E o ministério, cai ou não cai?
Sebastião ouvira dizer no vapor de Almada, de tarde, que a situação estava firme.
Mas o Saavedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas semanas estavam em terra. Nem aquele escândalo podia continuar! Não tinham a mais pequena idéia de governo. Nem a mais leve! Assim, por exemplo, ele... - E meteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas da cadeira. - Ele tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. Porque era leal! Sempre o fora em política! Pois bem, não lhe tinham despachado o primo recebedor de Aljustrel, tendo-lho prometido! E nem lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possível fazer política! Era uma coleção de idiotas!
Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua comissão no ministério; e ele o que queria era estar quieto ao seu cantinho...
O Alves Coutinho calava-se, com prudência, engolindo buchas de pão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.