Por Eça de Queirós (1875)
Os intervalos do seu serviço da igreja passava-os todos com a filha no casebre. Só atravessava o largo para ir à botica por algum remédio, ou comprar bolos à confeitaria da Teresa. Todo o dia aquele recanto da Sé, o pátio, o barracão, o alto muro ao lado coberto de parietárias, a casa ao fundo com a sua janela de portada negra numa parede lazeirenta, permaneciam num silêncio, numa sombra úmida: e os meninos do coro, que às vezes se arriscavam a ir pé ante pé, pelo pátio, espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado à lareira, com o cachimbo na mão, cuspilhando tristemente para as cinzas.
Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor pároco. E Amaro, nessa manhã, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lájeas do pátio a muleta, ia já ruminando a sua história - porque não podia pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, de algum modo, que o desejava para um serviço religioso... E que serviço, a não ser preparar, em segredo e longe das oposições mundanas, alguma alma terna para o convento e para a santidade?
Ao vê-lo entrar na sacristia, deu-lhe logo um "bons-dias" amáveis. Achou-lhe uma bela cara de saúde! Também não admirava - porque, segundo todos os santos padres, a freqüentação dos sinos, pela virtude particular que lhes comunica a consagração, dá uma alegria e um bem-estar especiais. Contou então com bonomia ao tio Esguelhas e aos dois sacristães que, quando era pequeno, em casa da Sra.
marquesa de Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...
Riram muito, extasiando-se com a pilhéria de sua senhoria.
- Não se riam, é verdade. E não me ficava mal... Noutros tempos eram clérigos de ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos padres consideravam-nos um dos meios mais eficazes da piedade. Lá disse a glosa, pondo o verso na boca do sino:
Laudo deum, populum voco, congrego clerum,
Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...
O que quer dizer, como sabem: Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas.
Citava a glosa com respeito, já revestido de amito e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas empertigava-se sobre a sua muleta àquelas palavras que lhe davam uma autoridade e uma importância imprevista.
O sacristão tinha-se aproximado com a casula roxa. Mas Amaro não terminara a glorificação dos sinos; - explicou ainda a sua grande virtude em dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns sábios presunçosos), não só porque comunicam ao ar a unção que recebem da bênção, mas porque dispersam os demônios que erram entre os vendavais e os trovões. O santo concílio de Milão recomenda que se toquem os sinos sempre que haja tormenta...
- Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe que nesses casos é melhor não se arriscar. Sempre é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio Matias.
E recebeu sobre os ombros a casula, murmurando com muita compostura:
- Domine, qui dixisti jugum meum... Aperte mais os cordões por trás, tio Matias. Suave est, et onus meum leve...
Fez uma cortesia à imagem e entrou na igreja, na atitude da rubrica, de olhos baixos e corpo direito; enquanto o Matias, depois de ter também saudado com um raspão de pé o Cristo da sacristia, se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.
Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, no Ofertório e ao Orate, fratres, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolência que o ritual permite) para o sineiro, como se o Sacrifício fosse por sua intenção particular; - e o tio Esguelhas, com a sua muleta pousada ao lado, abismava-se então numa devoção mais respeitosa. Mesmo ao Benedicat, depois de ter começado a bênção voltado para o altar para recolher do Deus vivo o depósito da Misericórdia, terminou-a, virando-se devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a ele só as Graças e Dons de Nosso Senhor!
- E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, vá-me esperar ao pátio que temos que conversar.
Não tardou a vir ter com ele, com uma face grave que impressionou o sineiro.
- Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho falar-lhe dum caso sério... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...
- Oh, senhor pároco!
Não, não era um favor... Porque, quando se tratava do serviço de Deus, todos tinham o dever de concorrer na proporção das suas forças... Tratava-se duma menina que se queria fazer freira. Enfim, para lhe provar a confiança que tinha nele, ia-lhe dizer o nome...
- É a Ameliazinha da S. Joaneira!
- Que me diz, senhor pároco?!
- Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o dedo de Deus! É extraordinário...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.