Por Eça de Queirós (1925)
— Você tem a fórma, agora é procurar a idéa. Comprehende„se, n'um primeiro livro de poesia, o genero lyrico. Mas é necessario não repetir. Victor Hugo fez as Orientaes, uma composiçãozinha ridicuIa, mas tomou a sua desforra nos Chatiments. Agora é pôr de lado o amor e os lirios e fallar-nos de cousas mais serias. — E o artigo sobre o livro de Damião
Arthur affirmava— segundo lhe dissera repetidamente Melchior — que o Saavedra o ia lêr . . . Naturalmente publicava-se. Talvez saia ámanhü, acrescentava. Elle venia.
Mas o que realmente queria vêr, todas as manhãs, o que ambicionava @om palpitações do coracão ao abrir o Secuto, era o !olhetim promettido sobre os Esmaltes. Não o encontrava. E vinha-lhe então uma grande irritação por não ver o artigo do Mathias sobre o livro de Damião.
E era aquelle o pretexto que tomava para se indignar contra Melchior, ir á redacção, e, ao principio com modos timidos, depois, mais seccamente, lembrar-lhe a sua palavra
— Oh, menino, o Saavedra lá tem o folhetim . . . Mas era necessario decidir, que diabo . — insistia elle, furioso contra Melchior, que, obtusamente, não comprehendia que a promessa que elle verdadeiramente queria vêr cumprida, não era sobre o livro do outro — bem lhe importava . — mas sobre o seu Sobre o seu !
Melchior, porém, comprehendera : muito lealmente, tentara, n'uma noite de lucta, produzir um folhetim sobre os Esmaltes e Jüias ; chegara a obter meia columna em que fallava da nitidez da edição e da grande inspiração Mas faltavam quatro columnas e meia e nem duas chavenas de café, nem charutos fumados á janella com a testa á aragem da noite, nem pitadas de rapé para alliviar o cerebro, nem passeios furiosos pelo quarto, nem a cabeça apertada entre as mãos, como um limão a que se exige o sumo — nada forçara a sua vasta fronte calva, que parecia conter um mundo, a produzir uma linha mais ! E desistira, furioso contra uma « tão extraordinaria falta de veia ».
Arthur agora subia quasi todas as manhãs ao Secuco, pretextando ir dar uma vista d'olhos aos jornaes mas na sua presença, na sua voz, na maneira
de se sentar, Melchior sentia errar uma vaga accusacão — já o temia como a credor.
— Ámanhã, fallo ao Saavedra — jurou-lhe um dia.
E na manhã seguinte, vendo-o entrar, ergueuse logo, e dizendo-lhe baixo que ia decidir a questão, foi bater discretamente com os nós dos dedos á portinha verde do gabinete do snr. Director.
— Entre !
Melchior entrou, fazendo a Arthur um gesto em que lhe promettia ser energico,
Mas d'ahi a momentos voltou e logo da porta abriu os braços, enterrando a cabeça nos hombros, exprimindo toda a sorte de impossibilidades.
— perguntou Arthur.
— Diz que não ! — fez o outro arregalando os olhos. — E levando-o para o vão da janeila : — Não deu explicações, diz que não : um livro communista, cheio d 'horrores . . . O artigo do Mathias tambem. Emfim, diz que não !
Arthur não pareceu muito irritado. Enrolava um cigarro com a cabeça baixa e de repente, um pouco vermelho, com a voz ligeira de quem se record.a d'uma minudencia :
—É verdade, a proposito- e o fcAhetinsiio sobre
os Esmaltes ?
Melchior córou, mas não querendo confessar a sua miseria intellectual :
— Que quer você, tambem diz que não !
— Ora essa !
— Fanei-lhe— continuava o outro com gestos desolados—é por causa da Ode á Liberdade, da Satura á Sociedade diz que não. O jornal está com o governo; se estivesse na opposl(süo, então . . . Diz que não ! — E baixando a voz : Um asno !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.