Por Eça de Queirós (1878)
- ... Reclinada molemente na sua verdejante colina, como odalisca em seus aposentos, está asábia Coimbra, a Lusa Atenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe de amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus melancólicos trilos. Quando vos aproximais pela estrada de Lisboa, onde outrora uma bem organizada mala-posta fazia o serviço que o progresso hoje encarregou à fumegante locomotiva, vede-la branquejando, coroada do edifício imponente da Universidade, asilo da sabedoria. Lá campeia a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade estudiosa chama "a cabra". Para além logo uma copada árvore vos atrai as vistas: é a celebrada árvore dos Dórias, que dilata seus seculares ramos no jardim de um dos membros desta respeitável família. E avistais logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus inocentes recreios, os briosos moços, esperança da pátria, ou requebrando galanteios com as ternas camponesas que passam reflorindo de mocidade e frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais árduos de seus bem elaborados compêndios...
- Está a sopa na mesa - veio dizer uma criada, de avental branco, muito nutrida.
- Muito bem, Conselheiro, muito bem! - disse logo o Saavedra do Século, erguendo-se. - E admirável!
Declarou para os lados com autoridade que o estilo era digno de um Rebelo ou de um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em Portugal de uma obra daquele quilate... E pensava baixo: "Grandíssima cavalgadura!..." O que era a sua apreciação genérica de todas as obras contemporâneas - excetuando os seus artigos no Século.
- Que lhe pareceu, meu bom amigo? - perguntou baixo o Conselheiro a Julião, passando-lhe amão sobre o ombro. - Mas uma opinião desafrontada, meu Zuzarte!
- Sr. Conselheiro - disse Julião com uma voz profunda - tenho-lhe inveja! E as suas lunetasescuras fixavam-se com uma preocupação crescente num xale-manta pardo, que a um canto cobria cuidadosamente, a julgar pelas saliências, altas pilhas de livros. Que seria? - Tenho-lhe inveja! - repetiu. - E outra coisa, Conselheiro, não se me dava de lavar as mãos.
Acácio levou-o logo ao seu quarto e retirou-se discretamente. Julião, sempre curioso, observou, surpreendido, duas grandes litografias aos lados da cama - um Ecce homo! e a Virgem das Sete Dores. O quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e teve a consolação de verificar que havia sobre o travesseiro duas fronhazinhas chegadas de um modo conjugal e terno!
Apenas ele saiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o Conselheiro conduziu-os à sala de jantar, dizendo jovialmente:
- Não esperem o festim de Lúculo: é apenas o modesto passadio de um humilde filósofo!
Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundância das travessas de doce; havia creme crestado a ferro de engomar, um prato de ovos queimados, aletria com as iniciais do Conselheiro desenhadas a canela.
- É um grande dia para Sebastião! - disse Jorge.
O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com um riso na face amarela:
- É cá dos meus, hem? Gosta do belo doce! Também me pelo, também me pelo!...
Houve então um silêncio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e moles do macarrão.
O Conselheiro disse:
- Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão!
- Gosta do macarrão? - acudiu o Alves.
- Muito, meu Alves. Lembra-me a Itália! - E acrescentou: - País que sempre desejei ver. Dizemme que as suas ruínas são de primeira ordem. Pode ir trazendo o cozido, Sra. Filomena... - Mas detendo-a, com um gesto grave: - Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um pargo.
Houve uma hesitação, Jorge disse:
- O cozido talvez.
E o Conselheiro com afeto:
- O nosso Jorge opina pelo cozido.
- Também estou pela sua! - exclamou o Alves Coutinho, voltado para Jorge, com o olho afogadoem reconhecimento: - O cozidinho!
E o Conselheiro que julgava do seu dever dar à conversação nobreza e interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:
- Dizem-me que é muito liberal a Constituição da Itália!
Liberal! Segundo Julião, se a Itália fosse liberal devia ter há muito expulso a coronhadas o Papa, o Sacro Colégio, e a Sociedade de Jesus!
O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolência do amigo Zuzarte para o "chefe da Igreja".
- Não - explicou - que eu seja um secretário do Syllabus! Não que eu queira ver os jesuítas entronizados no seio da família! Mas - e a sua voz tornou-se profunda - o respeitável prisioneiro do Vaticano é o vigário de Cristo! Meu Sebastião, sirva o arroz!
Não havia que estranhar aquelas opiniões católicas do Conselheiro, ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes à cabeceira da cama...
A calva de Acácio fez-se rubra. O Saavedra do Século exclamou com a boca cheia:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.