Por Eça de Queirós (1875)
Nós de dedos bateram discretamente à porta do quarto.
- Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a mesa, como absorvido, abismado nos seus papéis.
A Dionísia entrou, pousou o púcaro da água sobre o lavatório, tossiu, e falando sobre as costas de Amaro:
- Ó senhor pároco, olhe que isto assim não tem jeito. Ontem iam vendo sair daqui a pequena. É muito sério, menino... Para bem de todos é necessário segredo!
Não, não a podia impor! A mulher estabelecia-se, à força, na sua confidência. Aquelas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes, revelando uma prudência de ofício, mostravam-lhe a vantagem duma cumplicidade tão experiente.
Voltou-se na cadeira, muito vermelho.
- Iam vendo, hem?
- Iam vendo. Eram dois bêbedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.
- É verdade.
- E na sua posição, senhor pároco, na posição da pequena!... Tudo se deve fazer pelo calado... Nem os móveis do quarto devem saber! Em coisas que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse da morte!
Amaro então decidiu-se bruscamente a aceitar a proteção da Dionísia.
Rebuscou num canto da gaveta, meteu-lhe meia libra na mão.
- Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ela.
- Bem; e agora, Dionísia, que lhe parece? perguntou ele, recostado na cadeira, esperando os conselhos da matrona.
Ela disse, muito naturalmente, sem afetação de mistério ou de malícia:
- A mim parece-me que para ver a pequena não há como a casa do sineiro!
- A casa do sineiro?
Ela recordou-lhe, muito tranqüilamente, a excelente disposição do sítio ?. Um dos quartos ao pé da sacristia, como ele sabia, dava para um pátio onde se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois bem, justamente do outro lado eram as traseiras da casa do sineiro... A porta , da cozinha do tio Esguelhas abria para o pátio: era sair da sacristia, atravessá-lo, e o senhor pároco estava no ninho!
- E ela?
- Ela entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que dá para o adro. Não passa viva alma, é um ermo. E se alguém visse, nada mais natural, era a menina Amélia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, já se vê, é ainda pelo alto, que o plano pode-se aperfeiçoar...
- Sim, compreendo, é um esboço, disse Amaro que passeava pelo quarto refletindo.
- Eu conheço bem o sítio, senhor pároco, e creia o que lhe digo: para um senhor eclesiástico que tem o seu arranjinho, não há melhor que a casa do sineiro!
Amaro parou diante dela, rindo, familiarizando-se:
- Ó tia Dionísia, diga lá com franqueza: não é a primeira vez que você aconselha a casa do sineiro, hem?
Ela então negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquela idéia de noite, a malucar na cama. Pela manhã cedo fora examinar o sítio, e reconhecera que estava a calhar.
Tossicou, foi-se aproximando sem ruído da porta: e voltando-se ainda, com um último conselho: - Tudo está em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.
•••
Era isso agora o que preocupava o padre Amaro.
O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes e os sacristães, por um macambúzio. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos, sustentavam mesmo que aquele defeito o tornava, segundo a Regra, impróprio para o serviço da Igreja. Mas o antigo pároco José Miguéis, em obediência ao senhor bispo, conservara-o na Sé, argumentando que o trambolhão desastroso que motivara a amputação fora na torre, numa ocasião de festa, colaborando no culto: ergo estava claramente indicada a intenção de Nosso Senhor em não prescindir do tio Esguelhas. E quando Amaro tomara conta da paróquia, o coxo valera-se da influência da S. Joaneira e de Amélia para conservar, como ele dizia, a corda do sino. Era além disso (e fora a opinião da Rua da Misericórdia) uma obra de caridade. O tio Esguelhas, viúvo, tinha uma filha de quinze anos paralítica, desde pequena, das pernas. "O diabo embirrou com as pernas da família", costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraça que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga (cujo nome era Antônia, e que o pai chamava Totó) o torturava com perrices, frenesis, caprichos abomináveis. O doutor Gouveia declarara-a histérica: mas era uma certeza, para as pessoas de bons princípios, que a Totó estava possuída do Demônio. Houvera mesmo o plano de a exorcismar; o senhor vigário-geral, porém, sempre assustado com a imprensa, hesitara em conceder a permissão ritual, e tinham-lhe feito apenas, sem resultado, as aspersões simples de água benta. De resto não se sabia a natureza do endemoninhamento da paralítica: a Sra. D. Maria da Assunção ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a Gansosinho, em outra versão, assegurava que a desgraçada se dilacerava com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela rapariga, respondia secamente:
- Lá está.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.