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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O Bento considerou Gonçalo através dum espanto que lhe inchara a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violência. Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe andava a ele tão estragada e sacudida! Depois, em casa tão antiga, não destoava a tradição dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendência, e livre falar bem lhe cabiam bem os merecia por tão longa, tão provada dedicação...

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gonçalo logo docemente, para o adoçar:

- Dia muito bonito, bem, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

- Muito bonito.

Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciência de reatar com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amorável. E por fim mais doce, quase humilde:

- Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavalo antes do almoço. Que te parece?Talvez me faça bem aos nervos... Com efeito, aquele cognac não me convém... Então, Bento, faze o favor, grita aí ao Joaquim que me tenha a égua pronta imediatamente. Com certeza me acalma uma galopada... E no banho agora a água bem esperta, bem quente. Também me acalma a água quente. Por isso necessito sempre água bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéias... Pois todos os médicos o declaram. Para a saúde água quente, bem quente, a sessenta graus!

E depois do rápido banho, enquanto se vestia, abriu mais familiarmente ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

- Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada, homem! Depois estou farto desta eterna VilaClara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distração grande.

O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Sr. Doutor brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distração, nas Cortes.

- Eu sei lá se vou às Cortes, homem! Não sei nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem imensa, à Hungria, à Rússia, a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente daquela imaginação. E apresentando ao Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:

- Com efeito, na Rússia parece que não faltam aventuras. Anda tudo a Chicote, diz o Século... Mas aventuras, Sr. Doutor, até a gente as encontra na estrada... Olhe! o paizinho de V. Exa., que Deus haja, foi lá embaixo diante do portão que teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no braço...

Gonçalo calçava as luvas de anta, mirando o espelho:

- Pobre papá, coitado, também teve pouca sorte... E por chicote. ó Bento, dá cá àquele chicotede cavalo-marinho que tu ontem areaste. Parece que é uma boa arma.

Ao sair o portão, o Fidalgo da Torre meteu a égua, sem destino, num passo indolente, pela estrada costumada dos Bravais. Mas no Casal Novo, onde dois pequenos jogavam a bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe consertaria os nervos a companhia de tão sereno e generoso velho. E, se ele o convidasse a almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa falada quinta da Varandinha e cortejando "o botão de Rosa".

(continua...)

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