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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Aquele além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres Ramires, o d'Ultramar como quando corria da sua tenda para a escalada de Jerusalém. No outro, tão velho e formoso, que estendia o braço, ele adivinhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador ainda na alegria da radiosa manhã de Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fofas plumas escarlates do monão de Paio Ramires, que se armava para salvar S. Luís Rei de França. Levemente balançado, como pelas ondas humildes dum mar vencido, Rui Ramires sorria às naus inglesas que ante aproa da sua Capitânia submissamente amainavam por Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pajem do Guião de ElRei nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave dum avô enternecido...

Então, por aquela ternura atenta do mais poético dos Ramires, Gonçalo sentiu que a sua Ascendência toda o amava - e da escuridão das tumbas dispersas acudira para o velar e socorrer na sua fraqueza. Com um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus avós ressurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua vida, sem descanso, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado: - "Neto, doce neto, toma a minha lança nunca partida!" E logo o punho duma clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o animava: -"Neto, doce neto, toma a espada pura que lidou em Ourique1 E depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, ofertada com altiva certeza: - "Que não derribará essa acha, que derribou as portas de Arzila9

Como sombras levadas num vento transcendente todos os avós formidáveis perpassavam - e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas, através de toda a História, enobrecidas nas arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castelos e Vilas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heróico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam: - "Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga! Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu: - "Oh avós, de que me servem as vossas armas - se me falta a vossa alma?..."

Acordou muito cedo, com a enredada lembrança dum pesadelo em que falara a mortos - e, sem a preguiça que sempre o amolecia nos colchões, enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa manhã! uma manhã dos fins de setembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outonal. Mas, apesar de lhe respirar alentadamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espírito oprimido, como névoas em vale muito fundo. E foi ainda com um suspiro, arrastando tristonhamente as chinelas, que puxou o cordão da campainha. O Bento não tardou com a infusa da água quente para a barba. E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquele silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...

- Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação - que certamente fizera mal ao Sr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito excitante... Bom para o Sr. D. Antônio, homenzarrão pesado. Mas o Sr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar naquele cognac. Ou então, meio cálice escasso.

Gonçalo ergueu a cabeça, na surpresa de encontrar logo ao começo do seu dia e tão flagrante aquele domínio que todos sobre ele se arrogavam - e de que tanto se lastimava, através de toda a amarga noite! Eis ai o Bento mandando - marcando a sua ração de cognac! E justamente o Bento insistia:

- O Sr. Doutor bebeu mais de três cálices. Assim não convém... Eu também tive culpa em nãotirar a garrafa...

Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre teve uma brusca revolta:

- Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a água na infusa:

- Esta água está morna! - exclamou logo. - Já me tenho fartado de dizer! Para a barba, precisosempre água a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou também o dedo na água:

- Pois esta água está quase a ferver... Nem para a barba se necessita água mais quente.

Gonçalo encarou o Bento com furor. O quê! mais objeções, mais leis!

- Pois vá imediatamente buscar outra água! Quando eu peço água quente, pretendo que venhaem cachão. Irra! tanta sentença!... Eu não quero moral, quero obediência!

(continua...)

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