Por Eça de Queirós (1925)
Não deixou mesmo, n'essa noite; de contar ao Nazareno a sua questão com o «tolo do Melchior». Mas o Nazareno não conhecia no Seculo senãc 0 Saavedra, que, disse, «era um corruptozinho que merecia na enra a badine que usava na mão D.
Arthur, então, lembrou a necessidade de mogtrar ao Paiz a força do partido : achava prejudicial que o Club tivesse, havia quinze dias, suspendido as suas sessões, O motivo era o Mathias estar preparando o seu grande Programma d'Organisação Democratica, e parecer-lhe inutil reunirem-se antes de possuirem aquella base de trabalho, de acção, que era, segundo o Nazareno, uma das grandes obras que se tinham eseripto n'este seculo ».
—O Mathias leu-me hontem a primeira parte. Depois de Proudhon, não se tornou a escpever nada tão forte e tão elevado. O amigo verá !
No emtanto Arthur estava inquieto por causa da sua questão com o Melchior » : não conhecia que largo fundo d'indifferença pelas idéas ha nos espiritos inferiores e, julgando tel-o escandalisado no seu fervor xmonarchico, receava perder a noticia, o promettido folhetim no Seculo, e até os serviços
do velho Gonçalves, pae de tantos filhos ! Por isso, na manhã seguinte, ficou encantado encontrando Melchior, que vinha, risonho e florido, almoçar com o caro Arthur b.
Justamente, Arthur recebera, ao acordar, uma carta da typographia annuncia,ndo a terminação d o volume e remettendo a conta da impressão. Melchior examinou-a, achou-a muito moderada, prometteu mandar o Gonçalves á typographia e assegurou que depois do almocinho ia fazer uma noticia catita.
E com effeito, ao outro dia, Arthur ponde lêr.com o coração afogado em vaidade, os elogios do Seculo : « É hoje posto a venda o liVT0 de poesias do nosso « ilustre amigo Arthur Corvello, os Esmaltes e Joias. « É um bello volume de 250 paglnas, nitidamente impresso na excellente typographia de Castro & « Irmão, Vamos lêr e fallaremos d'espaço d'esta in-
« teressante estreia do inspirado poeta. É natural
« que a critica se occupe largamente d'este magni-
« fico volume. Em seguida damos um pequeno ex-
« tracto que nos parece uma verdadeira joia onde « não falta- o esmalte —E seguia-se a transcripção d'uma pequena poesia, em que Arthur, retomando uma antiga imagem do velho Gautier, comparava a sua alma cheia de desejos, a um pombal atulhado de pombas.
Recebeu pouco depois da typographia, os volumes destinados a offertas —e de robe-de-chambre, com uma chavena de café ao lado, passou uma manhã deliciosa, escrevendo dedicatorias na primeira pagina, n'um estylo lapidar, poetico, affectando na irregularidade da letra a desordem da inspiraeão. Remetteu um exemplar ás tias, outros ao Carneiro, á Corcovada, ao Rabecaz, ao Vasco da botica, ao Nazareno, ao Mathias, a D. Joanna Coutinho, ao Padilhão, a Victor Hugo, e outro ainda a Garibaldi, com estas palavras : Ao sublime heroe da espada, o humilde scismador da lyra. Mandou pôr volumes nos quartos de Meirinho e de Carvalhosa e n'um ultimo exemplar escreveu apenas : 15 de Maio. Estação de Ovar. Remember . . . Por entre as folhas pôz duas violetas esmagadas e sobrescriptou para o palacete da snr. a baroneza de Paradas, a S. Bento.
Depois, sentado á janella, com um exemplar na mão, ficou longo tempo a saborear o delicioso orgulho que elle lhe trazia ; o cylindrado do papel dava uma doçura inesperada á harmonia das rimas e a côr de canario da capa, com o seu nome em elzeviriano, enternecia-o ; lia aqui, além, versos, trechos, e ora tinha palpitações de vaidade por bellezas que impressas lhe pareciam d'um brilho particular, ora se assustava com incorrecções de fórma subitamente apercebidas, que lhe tinham escapado nas provas e que decidia emendar na segunda edição.
Entrou n'essa noite no Martinho, commovido. De certo o volume, tornado popular pela noticia do Seeulo, fôra já folheado. No rumor das conversas, parecia-lhe sentir o seu nome, trechos do livro tados ; deviam de certo olhal-o, examinal-o; e calculava os seus movimentos, a maneira de se encostar na cadeira, de passar a mão pelo cabello, para dar de si uma idéa mais favoravel e como que a revelação publica do seu genio intimo.
Nazareno que tomava o seu café, ainda não lera o livro, mas vira a noticia do Secuto.
Palavra, fiquei surprehendido — acudiu Arthur. — Depois da minha questão com o Melchior, imaginei que me fariam guerra. Mas não. No fundo, são bons rapazes—e é necessario estar-se bem com os jornaes . . .
De certo — disse Nazareno que parecia reflectir. E depois d'um momento : — Então o amigo é lá muito da gente do Secuto, hein
Arthur affirmou que tinha alguma influencia no Seculo.
Estimo --- disse Nazareno—porque então vamos arranjar uma cousa . . .
Procurou na algibeira e tirou um rolo de tiras de papel. baixando a voz :
—É necessario fazer publicar isto . . .
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.