Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

De repente o cônego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:

- Não estou bem, não estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai! morro!

Alvoroçaram-se em volta dele. D. Josefa amparou-o pelo braço até o quarto, gritando à criada que fosse buscar o doutor. Amélia correu á cozinha a aquecer uma flanela para lhe pôr no estômago. Mas não aparecia flanela. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida, à procura do seu xale para sair.

- Vá sem xale, sua estúpida! gritou-lhe Amaro.

A rapariga abalou. Dentro o cônego dava urros.

Amaro então, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josefa de joelhos diante da cômoda gemia orações a uma grande litografia de Nossa Senhora das Dores; e o pobre padre-mestre, estirado de barriga sobre a cama, rilhava o travesseiro.

- Mas minha senhora, disse o pároco severamente, não se trata agora de rezar. É necessário fazerlhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?

- Ai, senhor pároco, não há nada, não há nada, choramigou a velha. É uma dor que vem e vai num momento. Não dá tempo pra nada! Um chá de tília alivia-o às vezes... Mas por desgraça hoje nem tília tenho! Ai, Jesus!

Amaro correu a casa a buscar tília. E dai a pouco voltava esbaforido com a Dionísia, que vinha oferecer a sua atividade e a sua experiência.

Mas o senhor cônego, felizmente, sentira-se de repente aliviado!

- Muito agradecida, senhor pároco, dizia D. Josefa. Rica tília! É de muita caridade. Ele agora naturalmente cai em sonolência. Vem-lhe sempre depois da dor... Eu vou para ao pé dele, desculpemme... Esta foi pior que as outras... São estas frutas mald... - reteve a blasfêmia, aterrada. - São as frutas de Nosso Senhor. É a sua divina vontade... Desculpem- me, sim?

Amélia e o pároco ficaram sós na sala. Os seus olhares reluziram logo do desejo de se tocar, de se beijar, mas as portas estavam abertas; e sentiam no quarto ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse então alto:

- Pobre padre-mestre! É uma dor terrível.

- Dá-lhe todos os três meses, disse Amélia. A mamã já andava com o pressentimento. Ainda me tinha dito antes de ontem: é o tempo da dor do senhor cônego, estou com mais cuidado...

O pároco suspirou, e baixinho:

- Eu é que não tenho quem pense nas minhas dores...

Amélia pousou nele longamente os seus belos olhos umedecidos de ternura.

As suas mãos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D. Josefa apareceu, encolhida no seu xale. O mano tinha adormecido. E ela estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aqueles abalos arrasavam-lhe a saúde! Acendera duas velas a S. Joaquim, e fizera uma promessa a Nossa Senhora da Saúde. Era a segunda aquele ano, por causa da dor do mano. E Nossa Senhora não lhe tinha faltado...

- Nunca falta a quem a implora com fé, minha senhora, disse com unção o padre Amaro.

O alto relógio de armário bateu então cavamente oito horas. Amélia falou outra vez no cuidado em que estava pela mamã... De mais a mais ia- se a fazer tão tarde...

- E é que quando eu sai estava a chuviscar, disse Amaro.

Amélia correu à janela, inquieta. O lajedo defronte, debaixo do candeeiro, reluzia muito molhado. O céu estava tenebroso.

- Jesus, vamos ter uma noite de água!

D. Josefa estava aflita com o contratempo; mas a Amélia bem via, ela agora não podia despegar de casa; a Gertrudes fora ao doutor; naturalmente não o encontrara; andava a procurá-lo de casa em casa, quem sabe quando viria...

O pároco então lembrou que a Dionísia (que viera com ele e esperava na cozinha) podia ir acompanhar a Sra. D. Amélia. Eram dois passos, não havia ninguém pelas ruas. Ele mesmo iria com elas até à esquina da Praça... Mas deviam apressar-se que ia cair água!

D. Josefa foi logo buscar um guarda-chuva para Amélia. Recomendou-lhe muito que contasse à mamã o que tinha sucedido. Mas que não se afligisse ela, que o mano estava melhor...

- E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada. Diz-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a dor não deu tempo para nada!

- Sim, lá direi. Boa noite.

Ao abrirem a porta a chuva caía grossa. Amélia então quis esperar. Mas o pároco, apressado, puxou-a pelo braço:

- Não vale nada, não vale nada!

Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guarda-chuva, com a Dionísia ao lado, muito calada, de xale pela cabeça. Todas as janelas estavam apagadas; no silêncio as goteiras cantavam de enxurrão.

- Jesus, que noite! disse Amélia. Vai-se-me a perder o vestido.

Estavam então na Rua das Sousas.

- É que agora cai a cântaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o melhor é entrar no pátio de minha casa e esperar um bocado...

- Não, não! acudiu Amélia.

- Tolices! exclamou ele impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... É um instante, é um aguaceiro. Para aquele lado, vê, está a aliviar. Vai passar... É uma tolice... A mamã, se a visse aparecer debaixo duma carga de água, zangava-se, e com razão!

- Não, não!

Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, empurrando Amélia de levei - É um instante, vai passar, entre...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...103104105106107...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →