Por Eça de Queirós (1925)
Terminada a occupa,ção das provas, os dias tornaram-se muito vazios para Arthur. Mas estava então n'uma situação d'espirito tranquilla, muito segura. Em breve, pela publicação do seu livro, pela critica do Seculo — Melchior promettera-lhe um folhetim d'arromba » — ia ser illustre; a sua ligacão com os republicanos, com o Club, dava-lhe
uma secreta vaidade de revolucionario perigoso ; seria completamente feliz se pudesse vêr, conhecer a snr. a baroneza de Paradas.
Todas as manhãs, agora, por ociosidade, com uma vaga esperança, ia passear pela rua de S. Bento, esperando sempre que se daria emfim o encontro desejado, recebendo de cada vez uma desconsolação maior d'aquel]a longa fachada impassivelmente unida e vazia. Que faria ella lá dentro Suppunha-a lendo, estendida n'um sofá, ou no jardim que devia haver nas trazeiras da casa, bordando sob alguma velha arvore, vendo o pequerruchinho rolar-se pela relva.
Á noite ia a S. Carlos, sondando todos os camarotes com o binoculo ; e aos domingos no Passeio: á tarde no Pote das Almas ou pelo Chiado, não cessava de a esperar, de a invocar. Mas não a tornara a ver — e isto punha uma falha discordante na felicidade tão unida dos seus dias. Onde a encontraria ? Como ? A recordação odiosa da soirée da Coutinho dava-lhe, com o terror da sociedade, o desejo de a vêr, de a amar, fóra das convenções mundanas, na deliciosa segurança do mysterio, d'um modo litterario e excitante, á Romeu e Julieta, Quereria encontral-a n'um parque, n'umas pequenas ruinas, longe, n'algum recanto pittoresco de valle ou d'estrada. Uma manhã, ficou todo alvoroçado, vendo no Secado, nas noticias do high-life, que asnr.a baroneza de Paradas fazia vinte e cinco annos. Mas então Melchior e o Saavedra conheciamna Correu á redacção. Melchior encolheu og hombros : tinha copiado a noticia do Almanach do anno precedente, eram apontamentos do informador. Talvez o Saavedra soubesse . . . Tam bem não : ouvira dizer que era uma senhora brazi-
leira . . .
— Mas p'ra que quer você saber — perguntou Melchior, com um sorriso de malicia, muito curioso.
— Temos conquista ?
Arthur negou frouxamente.
— Vá lá homem, conte Iá— insistiu Melchior.
— Olhinho, cartinha, hein
Arthur não resistiu á tentação de dizer, affectando reserva :
— Conhecemo-nos, mas não ha nada !
— Seu felizardo ! — disse o outro, olhando-o @om in.veja Olha o melro, hein
E Arthur cofiava o bigode, entumecido de vaidade, o olho enternecido.
Melchior então, por um instincto de despeito, affectou não dar importancia á aventura que suspeitava : bocejou, estirou-se na cadeira, fallou de S. Carlos, do circo, d'outras cousas. E de repente :
— Então você agora é da panellinha do Nazareno
Arthur córou :
— Conhecemo-nos, É um amigo do Damião que foi meu companheiro em Coimbra. Porquê
— Vi-o hontem no Martinho . . . Você não me viu. Estava em grande cavaqueira com o Nazareno — E depois d'uma pausa : — Faz mal. Fraca sociedade.
Arthur então protestou : fez o elogio do Naza reno, do Mathias ; attribaia-lhes todas as virtudes, grandes excellencias d'espirito,
Melchior muito estirado na cadeira, com o ventre saliente, todo envolvido na fumaraça do charuto, disse com desprezo :
— Uma corja ! Uma corja !
Arthur escandalisou-se. Eram, disse, os caracteres mais nobres de Lisboa. .E irritado pelo tom d'escarneo de Melchior, pela sua attitude repoltreada de escrevinhador pedante, affirmou que o Mathias, o Nazareno, dentro de dous ou tres annos, haviam de governar o Paiz. O partido republicano estava certo de triumphar . . .
Melchior que limpava as unhas com um canivete teve um risinho secco :
— Ora historias, amigo ! Quatro municipaes, de chanfalhos desembainhados varrem todos os repu blicanos !
A contradicção fez perder a Arthur a pruden cia. Fallou do Club, da organisação do partido socialista no Porto, em Vizeu, em Coimbra : havia quinze mil operarãog promptos ; inventava forçae sociaes ao serviço da democracia : o dinheiro não faltava e — lembrando-se da presença do amigo Abilio» no Club da rua do Principe — jurou que toda a burguezia de Lisboa, proprietarios. banqueiros, pertenciam ao partido republicano . . .
Melchior fitou-o um momento com a expressão victoriosa de quem obtem a confissão d'um crime :
— Ah ! o amigo tambem é do Club
Arthur, vermelho, pensando que necessitava para o seu livro o apoio conservador do Seculo, negou. Não pertencia, mas emfim a verdade era a verdade . . . O partido republicano era forte . . *
— Meia duzia de maltrapilhos—rosnou Melchior, cuja verbosidade usual parecia esterilisada.
Calaram-se. E d'ahi a momentos Arthur sahiu, descontente. Melchior nem levantou a cabeça do papel : disse-lhe apenas um adeus amigo extremamente seceo.
A injustiça feita aos seus amigos fazia-lh'os parecer mais dignos, mais superiores. E como as palavras de Melchior o tinham revoltado, jurou dedicar-se aos republicanos, como aos unicos homens de justiça e de verdade que até ahi encontrara.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.