Por Eça de Queirós (1878)
Luísa saíra, como louca. Na Rua da Escola um cupê passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do Porto; queria vê-la, precisava dela, sem saber para quê... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéia, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar daquela tirania - era agora menor que o desejo de se vingar daquelas humilhações. Vinham-lhe idéias insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um prazer delicioso em a ver torcer-se com vômitos dilacerantes, uivando de agonia, largando a alma!
Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril.
A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:
- É a senhora D. Luísa, minha senhora, é a senhora D. Luísa!
E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, correu estendendo os braços:
- És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá para o quarto. Está tudodesarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é isto?
Abriu as janelas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de toalete; a Justina tirava à pressa uma bacia de latão, com água ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da véspera os rolos de cabelos, o colete, uma chávena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo:
- Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...
Mas vendo o rosto perturbado de Luísa, os seus olhos vermelhos de lágrimas:
- Que é? Que tens tu? Que sucedeu?
- Um horror, Leopoldina! - exclamou, apertando as mãos. A outra foi fechar a porta, rapidamente.
- Então?
Mas Luísa chorava sem responder. Leopoldina olhava-a petrificada.
- A Juliana apanhou-me umas cartas! - disse enfim por entre soluços. - Quer seiscentos mil réis! Estou perdida... Tem-me martirizado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como doida. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso! - E as lágrimas redobravam.
- E as tuas jóias?
- Valem duzentos mil réis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?
Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braços:
- Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...
Luísa murmurava, limpando os olhos:
- Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!
- Que diz a carta?
- Horrores! Estava doida... É uma minha, duas dele.
- De teu primo?
Luísa disse "sim", com a cabeça, lentamente.- E ele?
- Não sei! Está em França, nunca me respondeu.
- Pulha! Como tas apanhou, a mulher?
Luísa contou rapidamente a história do sarcófago, e do cofre.
- Mas tu também, Luísa, atirar uma carta dessas! Oh, mulher, isso é medonho!
E Leopoldina pôs-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupão escarlate; os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava:
- A questão é de dinheiro...
Luísa, prostrada no sofá, repetia:
- A questão é de dinheiro!
Então Leopoldina, parando bruscamente diante dela:
- Eu sei quem te dava o dinheiro!...
- Quem?
- Um homem.
Luísa ergueu-se, espantada:
- Quem?
- O Castro.
- O de óculos?
- O de óculos.
Luísa fez-se muito corada:
- Oh, Leopoldina! - murmurou. E depois de um silêncio, rapidamente.
- Quem to disse?
- Sei-o eu. Disse-o ele ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tulhe pedisses! Disse-lho mais de uma vez.
- Que horror! - exclamou Luísa subitamente indignada. - E tu propões me semelhante coisa? - Oseu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de cólera. Ir com um homem por dinheiro! Tirou o chapéu, violentamente, com as mãos trêmulas; arremessou-o para a jardineira, e com passos rápidos pelo quarto: - Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas!
- Não te exaltes, criatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse' o dinheiro,desinteressadamente...
- Acreditas tu?
Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anéis nos dedos.
- E quando fosse outra coisa? - exclamou de repente. - Era um conto de réis, eram dois, estavassalva, estavas feliz!
Luísa sacudiu os ombros, indignada daquelas palavras - dos seus próprios pensamentos, talvez!
- É indecente! É horrível! - dizia.
Ficaram caladas.
- Ah! fosse eu!... - disse Leopoldina.
- Que fazias?
- Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!
- Isso és tu! - exclamou Luísa, arrebatadamente.
Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó-de-arroz.
Mas Luísa atirou-lhe os braços ao pescoço:
- Perdoa-me, perdoa-me! Estou doida, não sei o que digo!...
Começaram ambas a chorar, muito nervosas.
Tu zangaste-te! - dizia Leopoldina cortada de soluços. - Mas é pra teu bem. É o que me parece melhor. Se eu pudesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita!
E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:
- Seiscentos mil réis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinha-o amanhã!
Nós de dedos bateram à porta.
- Quem é?
- Eu - disse uma voz rouca.
- É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa. Não posso abrir. Logo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.