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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Então, a propósito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro queixou-se do Bento sacristão. Nessa manhã antes de se paramentar - justamente quando entrara o senhor cônego na sacristia - acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em primeiro lugar dava-as a lavar a uma Antônia que vivia amancebada com um carpinteiro, em grande escândalo, e que era indigna de tocar os paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as tão enxovalhadas que era um desacato usá-las no divino sacrifício...

- Ai, mande-mas a mim, senhor pároco, mande-mas a mim, acudiu D. Josefa. Dou-as à minha lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz a roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! Eu mesmo as passava a ferro, e até se podia benzer o ferro...

Mas o cônego (que positivamente estava naquela noite duma loquacidade copiosa) interrompeua, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente:

- Ora a propósito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer, amigo e colega, que cometeu hoje um erro de palmatória.

Amaro pareceu inquieto.

- Que erro, padre-mestre?

- Depois de se revestir, continuou o cônego pausadamente, já com os diáconos ao lado, quando fez a cortesia à imagem da sacristia, em lugar de fazer a cortesia profunda, fez só a meia cortesia.

- Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. É o texto da rubrica. Facta reverentia cruci, feita a reverência à cruz; isto é, a reverência simples, abaixar ligeiramente a cabeça...

E, para exemplificar, fez uma cortesia a D. Josefa que lhe sorriu toda, torcendo-se.

- Nego! exclamou formidavelmente o cônego que em sua casa, à sua mesa, punha de alto as suas opiniões. E nego com os meus autores. Eles aí vão! - e deixou-lhe cair em cima, como penedos de autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavônio.

Amaro afastara a cadeira, pusera-se em atitude de controvérsia, contente de poder, diante de Amélia, "enterrar" o cônego, mestre de teologia moral e um colosso de liturgia prática.

- Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...

- Alto, ladrão, bramiu o cônego. Castaldus é meu!

- Castaldus é meu, padre-mestre!

E encarniçaram-se, puxando cada um para si o venerável Castaldus e a autoridade da sua facúndia. D. Josefa pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amélia com a cara franzida de riso:

- Ai, que gostinho vê-los! Ai, que santos!

Amaro continuava, com gesto alto:

- E além disso, tenho por mim o bom senso, padre-mestre. Primo, a rubrica, como expus. Segundo, o sacerdote, tendo na sacristia o barrete na cabeça, não deve fazer cortesia inteira, porque lhe pode cair o barrete e temos desacato maior. Tertio, seguir-se-ia um absurdo, porque então a cortesia antes da missa à cruz da sacristia seria maior que a que se faz depois da missa à cruz do altar!

- Mas a cortesia à cruz do altar... bradou o cônego.

- É meia cortesia. Leia a rubrica: Caput inclinat. Leia Gavantus, leia Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe por quê? Porque depois da missa o sacerdote está no auge da dignidade, uma vez que tem dentro em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Logo, o ponto é meu!

E de pé, esfregou vivamente as mãos, triunfando.

O cônego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi atordoado. E depois dum momento:

- Você não deixa de ter razão... Eu fui para o ouvir... Faz-me honra cá o discípulo, acrescentou piscando o olho a Amélia. Pois é beber, é beber! E depois salta o cafezinho bem quente, mana Josefa!

Mas um forte repique à campainha sobressaltou-os.

- É a S. Joaneira, disse D. Josefa.

A Gertrudes entrou com um xale e uma manta de lã:

- Aqui está isto que vem de casa da menina Amélia. A senhora manda muitos recados, que não pode vir, que se achou incomodada.

- Então com quem hei-de eu ir? disse logo Amélia, inquieta.

O cônego estendeu o braço sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na mão:

- Em último caso com este seu criado. E essa virtudezinha podia ir sossegada...

- Tem coisas, mano! gritou a velha.

- Deixa lá, mana. O que passa pela boca dum santo, santo fica.

O pároco aprovou ruidosamente:

- Tem muita razão o senhor cônego Dias! O que passa pela boca de um santo, santo fica! Para que viva!

- À sua!

E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controvérsia.

Mas Amélia ficara assustada.

- Jesus, que terá a mamã? Que será?

- Ora que há-de ser? preguiça! disse-lhe o pároco, rindo.

- Não te agonies, filha, disse D. Josefa. Vou-te eu levar, vamos todos levar-te...

- Vai a menina em charola, rosnou o cônego descascando a sua pêra.

Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a mão pelo estômago: - Pois olhem, disse, não me estou também a sentir bem...

- Que é? que é?

- Um ameaçozito da dor. Passou, não vale nada.

D. Josefa, já assustada, não queria que ele comesse a pêra. Que a última vez que lhe dera fora por causa da fruta...

Mas ele, obstinado, cravou os dentes na pêra.

- Passou, passou, rosnava.

- Foi simpatia com a mamã, disse o pároco baixo a Amélia.

(continua...)

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