Por Eça de Queirós (1925)
Arthur foi arrastado no movimento impaciente que se fez para a porta. E no pateo, emquanto accendia um charuto, achou-se ao lado do homem do cache-nez,
Não foi má estopada . .
Arthur disse-lhe, por condescendencia — A leitura foi longa.
O outro inclinou-se-lhe para o ouvido :
—É que se não faz nada ! Tudo isto é uma historia. palrar, é palrar ! Não se faz nada emquanto se não deita o governo abaixo ! Eu já disse ao Mathias—eu quero ir recebedor p'ra Belem. Eu cá sou franco . . .
desappareceu, encolhido no paletot, porque começara a choviscar.
Quando Arthur chegou ao Hotel, o porteiro disse-lhe que viera alli um sujeito procural-o ás nove horas, voltara ás nove e meia, depois ás dez, depois ás dez e meia. Da ultima vez, estava tão furioso que dera punhadas na mesa, rogando pragas.
Pela descripção — gordote, já entrado, gandes bigodes — Arthur reconheceu Melchior.
Ao outro dia Arthur recebeu as ultimas provas dos Esmaltes e Joias e revia-as no seu quarto* quando a porta se abriu e Melchior appareceu com um impeto irado. O aspecto d'Arthur, trabalhando tranquillamente, de robe-de-chambre de velludo, exas perou-o mais ainda, e curvando-se até ao chão disse ironicamente, com uma voz repassada d'Gdio :
— Sim senhor ! Fel-a boa
Arthur ia fallar, mas Melchior, bruscamente, com um gesto vivo :
—É simplesmente uma canalhice ! Venho aqui com a tipoia, com as raparigas, ás nove : nada, tinha sabido ! Volto ás nove e meia, com as raparigas na tipoia : nada ! Volto ás dez : nada ! E aqui me vejo eu com as mulheres, com a tipoia, a bater asruas, Chiado abaixo, Chiado acima, ellas furio-
sas, o cocheiro desconfiado — emfim, uma indecencia !
Arthur ia explicar , . .
— P'ra mim — interrompeu Melchior — pandegas comsigo, acabaram !
E então divagou prolixamente, n'uma abundancia de despeito : — que em Lisboa não se usavam d'aquellas chalaças . . . Com quem imaginava elle que estava a tratar O cocheiro era nada menos que o Teso, que só batia com a melhor rapaziada. E as raparigas , Tol-as incommodado, obrigado a sahir de caga. .. p'ra quê ? Assim perdia-se todo o credito, era-se mal recebido. Elle queria levar a sua vida direitinha . . . No fim, elle é que fôra responsavel . . . Era homem de bem, gostava de se portar como homem de bem, Emfim, o snr. Arthur tinha-o entalado I
Vendo aquella indignação verbosa, aquelle olhar fuzilante, Arthur acreditou que praticara uma vileza excepcional. Fallou em pedir desculpas, ir elle mesmo explicar á Concha
— E é que ha despezas — interrompeu Melchior, grave pela responsabilidade tomada. — É que ha despezas. O amigo imagina que o cocheiro andou a bater p'ra cima e p'ra baixo de graça? E eu tomei-o por sua conta . . . E as raparigas
Arthur tirou logo do bolso a bolsinha de trama de prata. Então Melchior, goeegado, responsabi-
A
lisou-se por arranjar as cousas decentemente com tres librinhas
—E onde diabo estava você ? — perguntou, já risonho — outra vez no High-Life ?
Arthur, discreto, teve um sim ambiguo, gosando interiormente as cautelas do conspirador. Estivera n'uma casa, até tarde Fôra convidado de repente . . .
— Pois eu tive um ferro — disse Melchior, penteando o bigode ao espelho. — E a Concha estava.
Oh, menino ! Uma divindade ! E ficou furiosa Não, palavra, ella está com muita curiosidade em o vêr.
Arthur lamentava intimamente aquella occasião perdida. E p'ra quê P'ra ouvir durante hora e meia, escorrer monotonamente, com uma lentidão d'agua gordurosa, o elogio balofo e molle dos Martyres da Liberdade ! Que tolice ! Apesar do seu desejo, não ousava propor outra pandega » a Melchior. Disse apenas, andando em redor da mesa com a cabeça baixa, embrulhando um cigarro :
— Tenho pena, tenho pena . . . Outra vez será, hein ?
Mas Melchior não o escutava : fôra, segundo o seu costume, para a janella, trautear, retorcer os bigodes, a vêr se pescava a segunda dama b.
Arthur, então, foi-lhe mostrar as ultimas provas dos Esmalta e Joias e córando um pouco, pergun-
tou-lhe se não seria possivel annunciar a publicasão proxima
— Está claro que sim ! E publica-se até uma poesia. Dá chic. Veremos logo isso. Você que faz á noite, nada ? Bem, venho jantar com você e combinamos a noticia. —- Bateu-lhe no hombro : — Hein, sou amigo ou não Arthur agradeceu.
—E p'rá venda do volume
— Entenda-se com o Gonçalves, o revisor. Eu lh'arranjo isso : não ha-de haver duvida. Põe-lhe o volume nos livreiros, á commissão. Você não tem trabalho nenhum, senão receber , É necessario dar alguma cousa ao Gonçalves, já se vê. Coitado, homem serviçal, cheio de familia
Deu uma escovadela ao chapéu e ia-se que tinha um rendez-vous Foi ainda olhar á varanda — mas como se não punha olho no diabo da cantora sahiu trauteando o fado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.