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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

mulavam a sua indignação politica com um termo de calão ou uma obscenidade de taberna ; os mais illustrados declamavam vagamente, fallando com gravidade na corrupção do baixo imperio Ninguem parecia ter uma noção exacta de reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da Republica escorreria a felicidade publica, penetrando todas as classes, até os mais obscuros casebres, com a fecunda universalidade da luz que cahe d'um astro. Ás vezes, um d'elles ia escutar á porta, outros seguiam-no, escondendo os cigarros atraz das costas . . . E ouvia-se a voz morosa do homem feio, impassivel, declamando considerações sobre o processo dos Girondinos

Mathias, de longe, reclamava-os com um olhar imperioso, alguns obedeciam resignadamente, indo immobilisar-se nas suas cadeiras, sob o lento escorrer da prosa infindavel ; outros recuavam rapidamente, refugiando-se no fundo da saleta, onde o bico de gaz erguia a sua tulipa de luz crua.

O Nazareno parecia o mais impaciente. Segundo elle, era inutil haver sessões, se ellas deviam ser tomadas por aquellas leituras rhetoricas. Então discutiram-se os trabalhos urgentes do Clube Antes de tudo, era necessario fundar um jornal. Um sujeito de barbas louras lembrou a necessidade de alliciar alguns militares. O Club devia fazer um manifesto a todos os liberaes, lembrava outro, e pôr-se em communicação oom os republicanos hespanhoes. Este projecto pareceu desagradar : alguns acha vam-lhe um odioso sabor iberico . . . Mas a salvacão da peninsula era uma republica federativa t E além d'isso, para fazer a republica, era necessario dinheiro e armas D'onde haviam de vir Da Hespanha !

e— Nada d'hespanhoes, nada d'hespanhoes !

— Hespanholas, sim — disse um gracejador.

O tumulto que ge levantara foi interrompido pelo secretario, que veio dizer :

— Oh, meninos, o Mathias está furioso ! Vocês fazem aqui uma algazarra que se ouve lá dentro . . O homem está a acabar . . . Pelo amor de Deus, venham.

Arthur que temia o descontentamento do Mathias foi retomar a sua cadeira O homem feio espalhava flores de eloquencia sobre os tumulos, lado a lado, dos quatro sargentos de La Rochelle.

Pouco a pouco os republicanos entravam — e, subitamente, o homem feio sentou-se.

Houve um rumor d'allivio, largamente respirado. Alguns tomavam o chapéu : eram onze e meia, que diabo !

Mas Mathias fez retinir a campainha :

— Consultarei a assembleia sobre a proposta que no fim do seu notavel trabalho o nosso illustre concidadão — e indicou o homem feio — acaba de fazer.

Foi um espanto. Que proposta . . Ninguem percebera ! Olhares interrogavam, hombros encolhiam-se.

Mathias, então, explicou :

— O nosso amigo propõe que se pendurem nas paredes do Club os retratos de todos os Martyres da Liberdade, desde os tempos mythologicos até . . . — Pareceu um momento interrogar a memoria : — perdão, snr. Esqueira, até . . .

O homem feio recitou d'um folego :

— Joaquim Vicente da Costa Esqueira, morto nas enxovias d'Almada, á machadada, pelas suas idéas jacobinas. Era meu tio.

Uma gargalhada correu pelas cadeiras. O velho Inilitar que parecia admirar o homem feio, rugiu : mais decencia ! E Mathias, severo :

— Acho a hilaridade inopportuna . , .

O homem feio julgou de certo do seu dever in dignar-se, e erguendo-se com solemnidade :

—É estranho que cause riso a homens liberaes um parente meu que morreu pela liberdade !

Alguns risos abafados escaparam, aqui e além ; e então, Gilberto, no meio da sala, com o chapéu na mão :

—A idéa é nobre, mas além de que não ha logar para conter n'estas paredes todos os Martyres da Liberdade, é difficil obter o retrato da maior parte — a não ser desenhos de phantasia que, por

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falsos, tenderiam a produzir a indifferença em gar d'inspirar a veneração. Além d'isso, os Martyres são innumeraveis—e as paredes são só quatro...

— Apoiado ! Apoiado !

O homem feio parecia descontento :

— Ao menos o immortal Rousseau .—começou.

— Nenhum ! nenhum ! — gritaram com impaciencia.

Estavam quasi todos de pé, havia uma vozearia. Então ouviu-se a voz do gnr. Abilio dizer :

— Eu, é só duas palavras . . ,

Fez-se um silencio deferente : havia sorrisos amp gos áquolla bemvinda phrase.

— Eu — continuou Abilio, de pé, com a face jovial — eu quero offerecer ao Club (dizia Clubio) um presentinho. Tenho lá em casa uma cabeça de gesso, que a minha senhora diz que é Minerva

Um lento rumor sympathico correu, áquella: bonhomia, quasi fraternal.

— Eu não sei se é Minerva, mas a cousa parece ter valor, E a mim parece-mo — desculpem se eu digo asneira — que poderia muito bem figurar como um busto da Republica. Se o querem, está ás ordens com todo o gosto. Eu já disse á minha senhora, porque emfim, são cousas que pertencem á casa. Ella consentiu, coitada . . E eu tenho muito gosto em

offerecer . . .

— Bravo ! Apoiado ! Acceitamos ! Muito bem

Abilio reclamou silencio :

— Então cá o mando, ámanhã, pela creada !

Palmas estalaram. Mathias erguendo-se :

— Está levantada a sessão.

(continua...)

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