Por Eça de Queirós (1878)
De resto ela mesma se esforçava por desenvolver aquela paixão, achando nela a compensação inefável das suas humilhações. Como lhe viera aquilo? Porque sempre o amara, decerto, reconhecia-o agora - mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ela sabia. Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente naquela violência amorosa pouca dignidade conjugal; suspeitava que o que tinha era apenas um capricho. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente casto... Que lhe importava, de resto? Aquilo fazia-a feliz, prodigiosamente. Fosse o que fosse, era delicioso!
Ao princípio a idéia do outro pairava constantemente sobre esse amor, pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas pouco a pouco esquecera-o tanto, o outro - que a sua recordação, quando por acaso voltava, não dava mais amargor à nova paixão, que um torrão de sal pode dar às águas de uma torrente. Que feliz que seria - se não fosse a infame!
Era a infame que se sentia feliz! Às vezes só no seu quarto, punha-se a olhar em redor com um riso de avaro: desdobrava, batia os vestidos de seda; punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extática; e debruçada sobre as gavetas abertas da cômoda contava, recontava a roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da Piorrinha! murmurava, afogada em júbilo.
- Ai! Estou muito bem! - dizia ela à tia Vitória.
- Que dúvida que estás! A carta não te rendeu um conto de réis, mas olha que te trouxe um parde regalos. E é que há de ser uma pingadeira; há de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda muito obrigada por cima. Carda-a; filha, carda-a!
Mas já havia pouco que cardar. E lentamente Juliana começou a pensar, que agora o que devia era gozar. Se tinha bons colchões - para que se havia de levantar cedo? Se tinha bons vestidos - por que não havia de ir espairecer para a rua? Toca a tirar partido!
Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até às nove horas, as janelas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou secamente, que tinha estado com a dor. Daí a dois dias Joana, às dez horas, veio dizer baixo a Luísa:
- A Sra. Juliana ainda está na cama; está tudo por arrumar. Luísa ficou aterrada. O quê? Teriade sofrer os seus desmazelos, como as suas exigências?
Foi ao quarto dela:
- Então você levanta-se a estas horas?
- Foi o que me recomendou o médico - replicou muito insolente.
E daí por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de servir ao almoço. Luísa pediu logo a Joana que fizesse o serviço por ela: era por pouco tempo; a pobre criatura andava tão adoentada! E para acomodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda de um vestido.
Juliana depois sem pedir licença, começou a sair. Quando voltava tarde para o jantar, não se desculpava.
Um dia Luísa não se conteve; disse-lhe, vendo-a passar no corredor e calçar as luvas pretas:
- Você vai sair?
Ela respondeu, muito atrevidamente:
- É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação. E abalou, batendo os tacões.
Ora, não lhe faltava mais nada senão estar a constranger-se por causa da Piorrinha!
Joana começava a resmungar: "passa a sua vida na rua a Sra. Juliana e eu é que agüento..."
- Se você estivesse doente, também ninguém lhe ia à mão - acudiu Luísa; aflita, quandopercebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa.
Havia agora um desperdício na casa. Os róis cresciam. Luísa andava sucumbida. - Como acabaria tudo aquilo?
Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.
Para sair mais cedo fazia apenas o essencial. Era Luísa que acabava de encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que levava para o sótão roupa suja que ficava pelos cantos...
Um dia Jorge que entrara às quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luísa apressou-se a dizer que Juliana saíra, mandara-a ela à modista.
Daí a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao jantar. Tinha ido à modista..., explicou Luísa.
- Mas se a Juliana é unicamente para ir à modista, então toma-se outra criada para fazer oserviço da casa - disse ele. Àquelas palavras secas Luísa fez-se pálida; duas lágrimas rolaramlhe pela face
Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luísa não se dominou, rompeu choro nervoso, histérico.
- Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...
Ela não podia responder, sufocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de toalete, beijou-a muito.
Só quando o choro acalmou é que ela pôde dizer, com voz soluçada:
- Falaste-me tão secamente, e eu estou tão nervosa...
Ele riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lágrimas - mas ficou inquieto.
Já então lhe notara certas tristezas, abatimentos inexplicáveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.