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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Foste tu! - gritei, de repente iluminado e compreendendo o prodígio. - Foste tu! Foste tu!

E, com os punhos fechados para ele, desafoguei fartamente os queixumes, os agravos do meu coração:

- Sim, foste tu que transformaste ante os olhos devotos da Titi a coroa de dor da tua lenda - na camisa suja da Mary!... E por quê? Que te fiz eu? Deus ingrato e variável! Onde, quando, gozaste tu devoção mais perfeita? Não acudia eu todos os domingos, vestido de preto, a ouvir as missas melhores que te oferta Lisboa? Não me atochava eu todas as sextas-feiras, para te agradar, de bacalhau e de azeite? Não gastava eu dias, no oratório da Titi, com os joelhos doridos, rosnando os terços da tua predileção? Em que cartilhas houve rezas que eu não decorasse para ti? Em que jardins desabrocharam flores com que eu não enfeitasse os teus altares?

E arrebatado, arrepiando os cabelos, repuxando as barbas, eu clamava ainda, tão perto da imagem que as baforadas da minha cólera lhe embaciavam o vidro:

- Olha bem para mim!... Não te recordas de ter visto este rosto, estes pêlos, há séculos, num átrio de mármore, sob um velário, onde julgava um Pretor de Roma? Talvez te não lembres! Tanto dista de um deus vitorioso sobre o seu andor a um Rabi de província amarrado com cordas!... Pois bem! Nesse dia de Nizam, em que não tinhas ainda confortáveis lugares no céu e na bemaventurança a distribuir aos teus fiéis; nesse dia, em que ainda te não tornaras para ninguém fonte de riqueza e esteio de poder; nesse dia, em que a Titi, e todos os que hoje se prostram a teus pés, te teriam apupado como os vendilhões do templo, os fariseus e a populaça de Acra; nesse dia, em que os soldados que hoje te escoltam com charangas, os magistrados que hoje encarceram quem te desacate ou te renegue, os proprietários que hoje te prodigalizam ouro e festas de igreja - se teriam juntado com as suas armas e os seus códigos e as suas bolsas, para obterem a tua morte como revolucionário, inimigo da ordem, terror da propriedade; nesse dia, em que tu eras apenas uma inteligência criadora e uma bondade ativa, e portanto considerado pelos homens sérios como um perigo social - houve em Jerusalém um coração que espontaneamente, sem engodo no céu, nem terror do inferno, estremeceu por ti. Foi o meu!... E agora perseguesme. Por quê?...

Subitamente, oh maravilha, do tosco caixilho com borlas irradiaram trêmulos raios, cor de neve e cor de ouro. O vidro abriu-se ao meio com o fragor faiscante de uma porta do céu. E de dentro o Cristo no seu madeiro, sem despregar os braços, deslizou para mim serenamente, crescendo até ao estuque do teto, mais belo em majestade e brilho que o sol ao sair dos montes.

Com um berro caí sobre os joelhos; bati a fronte apavorado no soalho. E então senti esparsamente pelo quarto, com um rumor manso de brisa entre jasmins, uma voz repousada e suave:

- Quando tu ias ao alto da graça beijar no pé uma imagem - era para contar servilmente à Titi a piedade com que deras beijo; porque jamais houve oração nos teus lábios, humildade no teu olhar

- que não fosse para que a Titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O deus a que te prostravas era dinheiro de G. Godinho; e o céu para que teus braços trementes se erguiam - o testamento da Titi... Para lograres nele o lugar melhor, fingiste-te devoto, sendo incrédulo; casto, sendo devasso; caridoso, sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho, tendo só a rapacidade de herdeiro... Tu foste ilimitadamente o hipócrita! Tinhas duas existências: uma ostentada diante dos olhos da Titi, toda de rosários, de jejuns, de novenas; e longe da Titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adélia e da Benta... Mentiste sempre; e só eras verdadeiro para o céu, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e à Virgem que rebentassem depressa a Titi. Depois resumiste esse laborioso dolo de uma vida inteira num embrulho - onde acomodaras um galho, tão falso como o teu coração; e com ele contavas empolgar definitivamente as pratas e prédios de D. Patrocínio! Mas noutro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a irrecusável evidência do teu fingimento... Ora, justiceiramente aconteceu que o embrulho que ofertaste à Titi e que a Titi abriu - foi aquele que lhe revelava a tua perversidade! E isto provate, Teodorico, a inutilidade da hipocrisia!

Eu gemia sobre as tábuas. A voz sussurrou, mais larga, como o vento da tarde entre as ramas:

(continua...)

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