Por Eça de Queirós (1878)
Mas refletiu: Joana podia ter desconfianças também, ter ouvido alguma coisa a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar contente e amiga, deu-lhe dois lenços de seda, depois dois mil réis para um vestido; e daí por diante nunca lhe recusou licença para sair à noitinha à casa de uma tia...
A Joana ia por toda a parte falando da senhora, que era um anjo. Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do "quarto novo", dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com indignação, que ali positivamente havia marosca.
Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas.
- Ora! Dizem que tenho isto e aquilo. Não é tanto! Tenho as minhas comodidades. Mas tambéma maneira como eu lhes tratei a tia, de dia e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que arruinei a minha saúde!
Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a família agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta!
E, pouco a pouco, a casa do Engenheiro teve para os criados da vizinhança a vaga sedução de um paraíso; dizia-se que as soldadas eram enormes, havia vinho à discrição, recebiam-se presentes todas as semanas, ceava-se todas as noites caldo de galinha! Cada um invejava aquela "pechincha". Pela inculcadeira, a fama da casa do Engenheiro alargou-se. Criou-se uma legenda.
Jorge, atônito, recebia todos os dias cartas de pessoas oferecendo-se para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam as casas titulares de que tinham saído; pediam audiência; suspeitando certas coisas uma bonita criada de quarto juntou a sua fotografia; um cozinheiro trouxe uma carta de empenho do diretor-geral do ministério.
- Estranho caso! - dizia Jorge, pasmado - disputam-se a honra de me servir! Imaginarão que mesaiu a sorte grande?
Mas não dava muita atenção àquela singularidade. Vivia então muito ocupado; andava escrevendo o seu relatório; e todos os dias saía ao meio-dia, voltava às seis com rolos de papéis, mapas, brochuras, fatigado, berrando pelo jantar, radiante.
Contou o caso, todavia, rindo, um domingo à noite. O Conselheiro observou logo.
- Com o bom gênio de D. Luísa, com o seu, Jorge, neste bairro saudável, numa casa semescândalos, sem questões de família, toda virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma posição tão agradável.
- Somos os amos ideais! - disse Jorge, batendo muito alegre no ombro.
A casa, com efeito, tornava-se agradável. Juliana exigira que o jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como era boa cozinheira, vigiava os fogões, provava, ensinava pratos à Joana.
- Esta Joana é uma revelação - dizia Jorge - vê-se-lhe crescer o talento.
Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pele, colchões macios, saboreava a vida; o seu temperamento adoçara-se naquelas abundâncias; depois, bem aconselhada pela tia Vitória, fazia o seu serviço com um zelo minucioso e hábil. Os vestidos de Luísa andavam cuidados como relíquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham resplandecido tanto! O sol de outubro alegrava a casa, muito asseada, de uma pacatez de abadia. Até o gato engordava.
E no meio daquela prosperidade - Luísa definhava-se. Até onde iria a tirania de Juliana? Era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ela se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, cantarolando a Carta Adorada, dormindo em colchões tão bons como os seus, pavoneando-se na sua roupa, reinando na sua casa! Era justo, justos céus?
Às vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasfemava, debatia-se na sua desgraça, como nas malhas de uma rede; mas, não encontrando nenhuma solução, recaía numa melancolia áspera - em que o seu gênio se pervertia. Seguia com satisfação a amarelidão crescente das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria um dia, o demônio?
E diante de Jorge tinha de a elogiar!
A vida pesava-lhe. Apenas ele pela manhã saía e fechava a cancela, logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, devagar, como grandes véus espessos que se abatem lugubremente; não se vestia então até às quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em chinelas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir meter-se num convento! A sua sensibilidade muito exaltada impeli-la-ia decerto a alguma resolução melodramática - se a não retivesse, com a força de uma sedução permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava agora, imensamente! Amava-o com cuidados de mãe, com ímpetos de concubina... Tinha ciúmes de tudo, até do ministério, até do relatório! Ia interrompê-lo a cada momento, tirar-lhe a pena da mão, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos dele no corredor davam-lhe o alvoroço dos amores ilegítimos...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.