Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo largou logo alegremente para Vila-Clara, ao encontro do Titó. E já o alvoroçava a idéia de colher do Titó, íntimo da Feitosa, informações sobre a D. Ana, o seu gênio, os seus modos. A prima Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos Mendonças!), idealizava a noiva. Mas o Titó, o homem mais verídico do Reino, amando a Verdade com a antiga devoção de Epaminondas, apresentaria D. Ana sem um enfeite nem um desenfeite. E o Titó... Ah! sob o seu vozeirão troante, a sua indolência bovina, o Titó possuía um espírito muito atento, muito penetrante.
Logo à Portela os dois amigos se encontraram. E, apesar de separação tão curta, o abraço foi estrondoso.
- Ó sõ Gonçalão!...
- Ó Titozinho querido! tens feito cá uma falta enorme!... E teu irmão?
- O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapácio e muita fêmea para velho de sessenta anos. Eele lá o avisara: - "Mano João, mano João! olhe que assim sempre agarrado aos papéis velhos e às cachopas novas, o mano rebenta!" - E por cá? Essa eleição?
- A eleição agora para outubro, nos começos de outubro... De resto, sensaboria universal.Gouveia na costa, Manuel Duarte na vindima... Eu secadote, murchote, sem veia, até sem apetite.
- Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.
- Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre... Ela está na Feitosa com a D. Ana.
Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na Feitosa, com a tentação de desabafar, logo ali na estrada, sobre o inesperado romance que desabrochara. Mas não ousou! Era um angustiado acanhamento, como a vergonha de cobiçar assim todos os restos do pobre Lucena - o Círculo e a viúva.
Então, conversando do Alentejo e do mano João (que contara muitas antigualhas maçadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da Portela à Torre, com tenção de estirar o passeio até aos Bravais. Mas, na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dois convivas inesperados, senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar onde um fio lento d'água se atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa acudiu, limpando as mãos ao avental. O quê! dois convidados! Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprara a uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, graúdas e gordas que regalavam!... O Titó reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos atravessavam o pátio - quando Gonçalo reparou no Bento, escarranchado no banco da latada, diante duma tigela, e areando com entusiasmo um castão de prata lavrada, que emergia de dentro duma toalha enrolada como duma bainha.
- Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?
O Bento lentamente sacou da toalha torcida um chicote, escuro e comprido, com três arestas afiadas como as dum florete.
- Nem o Sr. Dr. sabia! Estava no sótão. Agora de tarde andava lá a escarafunchar por causaduma ninhada de gatos, e detrás dum baú dou com umas esporas de prateleira e com este arrocho...
Gonçalo estudou o maciço castão de prata, sacudiu a fina vara que zinia:
- Esplêndido chicote... Ó Titó, bem?... Afiado como um cutelo. E antigo, muito antigo, com asminhas armas... De que diabo é feito? baleia?
- De cavalo-marinho... Uma arma terrível. Mata um homem... O mano João tem um, mas comcastão de metal... Mata um homem!
- Bem - rematou Gonçalo. - Limpa e põe no meu quarto, Bento! Passa a ser o meu chicote deguerra!
Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena de cotim deitada aos ombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava enfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando ao Titó o lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a tornar a Torre uma falada maravilha de seara, vinha e horta! O Pereira coçava a barba rala:
- E também a enterrar bom dinheiro! Enfim um gosto sempre valeu mais que um vintém! E oFidalgo, como patrão, merece terra em que os olhos se esqueçam de regalados!...
- Oh, Sr. Pereira! - ribombou o Titó. - Então não se esqueça de cuidar dos melões. É umavergonha! Nunca na Torre se comeu um bom melão!
- Pois para o ano, assim Deus nos conserve, já V. Exa. comerá na Torre um bom melão!
Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador - e apressou para a estrada, decidido a desenrolar toda a confidência ao Titó, na solidão favorável do arvoredo dos Bravais. Mas, apenas recomeçaram a caminhada, o mesmo enleio o travou - quase temendo agora as informações do Titó, homem tão severo, de Moral tão escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravais o findaram, sem que Gonçalo desafogasse. O crepúsculo descera, mole e quente, quando recolheram - conversando sobre a pesca do sável no Guadiana.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.