Por Eça de Queirós (1925)
Pelo amor de Deus, o que ahi vae ! Ahi está o snr. Falcão com as suas exager'ações e o snr. Nazareno com o seu genio. Eu nic disse . . . eu não disse , . . Eu, o que queria dizer, é que era necessario não fazer as cousas a trochemoche. É necessario mais solemnidade . , . Porque é que se
A
não ha-de exigir aos que são admittidos o juramento
— Sobre um craneo ! — soltou Gilberto.
Houve risadas, Muito bem ! E Gilberto ergaeu-se :
— Peço a palavra. Hão-de notar que é sempre do snr. Malachias que sahem as idéas comicas sobre a symbolica do Club : foi elle que ha tempos reclamou a senha ; hoje quer o juramento ; ámanhã ha-de exigir o subterranéo ; depois, em logar do gaz, a tocha ! A democracia do snr. Malachias pertence á Rua dos Condes. Quanto ao sor. Falcão, são bem conhecidas as suas idéas, o seu caracter, os seus artigos na Evolução, a sua vida — Apoiado ! Apoiado !
Nazareno erguera-se :
— E com respeito ao snr. Corvello, creio que é inutil affirmar a sinceridade das suas crenças, o seu odio intransigente á sociedade conservadora . e .
— Apoiado ! Apoiado ! Está acabado isso . , . ! Malachias curvou-se, disse ainda :
— Eu, com a minha pequena experiencia, sem, pre tenho visto exigir-se o juramentozinhn Lá fóra é o mesmo . . . Mas emfim, se os sabios não querem . . . Eu, era para o futuro, mas emfim . . . eh! eh ! eh I
Em redor puxavam-lhe pelas abas do paletot ; elle sentou-se, resmungando, mas erguendo-se logo com a elasticidade d'uma mola, recomeçou na sua voz irritante que punha comichões no sangue :
— Eu pego perdão de voltar á carga, mas emfim . . . para dirigir uma pergunta á mesa . . . Queria saber se a subscripção de mil réis por cabeça, para as obras da sala, foi excedida ou se ha um saldo E se ha um deficit, quem responde . . . Sim, n'estas questõezinhas de dinheiro . . a Eu não quero offender —E enterrava a cabeça nos hombros, com um gesto torcido dos braços : — Mas
emfim ; . •
Mathias disse com seccura :
— As contas serão apresentadas, examinadas e discutidas. A pergunta é inopportuna e mal formulada.
Malachias teve o seu riso casquinado :
— Eu era p'ra saber . , . Gosto de saber . , . Eh !
E ficou sentado, passando pelo queixo os longos dedos magrissimos.
Tmmediatamente, um homem d'edade, muito feio, com uma baxba de pellos grisalhos e raros, ergueu-se. com um caderno de papel na mão. Escar rou e com uma voz lenta, dormente, um pouco cava:
— Eu pensei que n'este dia de inauguração, seria conveniente lêr algumas paginas, que puzessem deante do espirito de todos as phases que tem atravessado a Liberdade. Se me permittem E
vendo Mathias abaixar a. cabeça em consentimento, o homem feio abriu o caderno, pigarreou, e comegou a lêr : Se remontarmos aos tempos quasi mythologicos, encontramos o primeiro martyr da liberdado, pregado sobre um rochedo, e tendo o flanco devorado pelo bico de bronze d'um incansavel abutre
Havia em redor um vago pasmo : o que era Examinava-se o cadern.o espesso, azul, cosido com guita. O quê ! Ia lêr aquillo tudo
. . . O insensato » — continuava elle, lento, pausado, crasso — tendo querido arrebatar aos Im- mortaes o fogo sagrado, viii seus membros acorrentados ao Caucaso e a historia sauda n'elle o primeiro que reivindicou os direitos do homem contra a tyrannia da Divindade . . .
Comprehendeu-se vagamente que era a longa historia dos Martyres da Liberdade, desde Prometheu ! Alguns queriam escutar, por camaradagem, ou na esperança de anecdotas typicas ou de declamagões que lisonjeassem as suas opiniões : mas os periodos molles, gordos, movendo-se surdamente, como um lento rolar d'odres mal-eheios, constituiam uma rhetorica fatigante ; a voz era tão dormente, d'um escorrer tão monotonc que amodorrava ; algumas conversas estabeleceram-se baixo ; um sujeito er gueu-se em bicos de pés, apanhou no estrado a meepu do charuto que lá deixara, e, subtilmente, refugiou-se na saleta ; outros seguiram-no — os mais timidos affectando, com as mãos nas calças, uma necessidade urgente ; e os que ficavam, para resistir ao torpor erescente, estabeleciam uma sussurragio de vozes ciciadas. Então, Mathias, que tinha os olhos fitos no tecto, batia com os dedos na borda da mesa —e no silencio deferente que se cavava, ouvia-se a voz vagarosa, fallando « dos grilhões de Spartacus, do punhal de Bruto ou do ferro de Lucrecia 9. Mas o rumor crescia gradualmente e, um a um, sujeitos em bicos de pés, encolhidos, desappareciam pela porta estreita da saleta. Vinha de ló uma fumaraça de tabaco ; ós vezes, uma face de cigarro na bocca espreitava para a sala ; ouviam-se risadinhas . . . Impassivel, absorvido, solemne, o homem feio ia expondo as miserias da plebe romana.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.