Por Eça de Queirós (1878)
E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os esteireiros a pregavam, Jorge veio perguntar atônito a Luísa o que era aquilo, rolos de esteira no corredor?" Ela pôs-se a rir; pousou-lhe as mãos sobre os ombros:
- Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o soalho estava podre. Até aqueria pagar, e que eu lha descontasse nas soldadas. Ora por uma ridicularia... - E com um gesto compassivo: - Também são criaturas de Deus; não são escravas, filho!
- Magnífico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança foi essa, tu que anão podias ver?
- Coitada! - fez Luísa - reconheci que era boa mulher. E como estive tão só, dei-me mais comela. Não tinha com quem falar; fez-me muita companhia. Até quando estive doente...
- Estiveste doente? - exclamou Jorge espantado.
- Oh! Três dias, só - acudiu ela - uma constipação. Pois olha que dia e noite não se tirou de aopé de mim.
Luísa ficou com receio que Jorge falasse na doença, e Juliana desprevenida negasse, por isso, nessa tarde, ao escurecer chamou-a ao quarto:
- Eu disse ao Sr. Jorge que você me tinha feito muito boa companhia na doença... - E o seurosto abrasava-se de vergonha.
Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:
- Fico entendida, minha senhora! Pode estar sossegada!
Com efeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para Juliana, e com bondade:
- Parece que você fez boa companhia à Sra. Luísa.
- Fiz o meu dever - exclamou, curvando-se com a mão no peito.
- Bem, bem - fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sair da sala meteu-na mão meia libra.
- Palerma! - rosnou ela.
Foi nessa semana que começou a queixar-se à Luísa, que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam... Estava-se-lhe a estragar tudo! Se ela tivesse dinheiro, não vinha com aqueles pedidos à senhora, mas... Enfim uma manhã declarou terminantemente que precisava uma cômoda.
Luísa sentiu uma raiva acender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos do bordado - Uma meia cômoda?
- Se a senhora quer fazer o favor, então uma cômoda inteira...
- Mas você tem pouca roupa - disse Luísa. Começava a instalar-se na humilhação e járegateava as condescendências.
- Tenho, sim, minha senhora - replicou Juliana -, mas vou agora completar-me!
A cômoda foi comprada em segredo, e introduzida ocultamente. Que dia de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira nova! Passava a mão, com a tremura de uma carícia, sobre o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de seda; e começava a completar-se!
Foram semanas de amargura para Luísa.
Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito cumprimenteira, começava a amimar, e de repente com uma voz lamentosa:
- Ai! Estou tão falta de camisas! Se a senhora me pudesse ajudar...
Luísa ia às suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente a pôr à parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca; tinha tudo às dúzias, com lindas marcas, sachês para perfumar; e aquelas dádivas dilaceravam-se com mutilações! Juliana por fim já pedia com secura, com direito:
- Que bonita que esta camisinha! - dizia simplesmente. - A senhora a quer, não?
- Leve, leve! - dizia Luísa sorrindo, por orgulho, para não se mostrar violentada.
E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, inchada de alegria, com o candeeiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, desfazendo as duas letras de Luísa, marcando regaladamente as suas, a linha vermelha, enormes - J C T - Juliana Couceiro Tavira!
Mas enfim cessou, porque, como ela dizia, de roupa branca estava como um ovo.
- Agora, se a senhora me quiser ajudar com alguma coisa para sair...
E Luísa começou a vesti-la.
Deu-lhe um vestido roxo de seda, um casaco de casimira preta, com bordados a sutache. E receando que Jorge estranhasse as generosidades, transformava-as para ele as não reconhecer; mandou tingir de castanho o vestido; ela mesma por sua mão pôs uma guarnição de veludo no casaco. Trabalhava para ela, agora! Como acabaria tudo aquilo, Santo Deus?
Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:
- Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.D. Felicidade, à noite, também notou:
- Que chique! Nem uma criada do paço!
- Coitada! Coisas que ela aproveita...
Prosperava, com efeito! Não punha na cama senão lençóis de linho. Reclamara colchões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os sachês que perfumavam a roupa de Luísa iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cômoda dois vasos da Vista Alegre dourados! Enfim um dia santo, em lugar da cuia de retrós, apareceu com um chignon de cabelos!
Joana pasmava daquelas tafularias. Atribuía-as à bondade da senhora, e ressentia-se de ser "esquecida". Um dia mesmo, que Juliana estreara uma sombrinha, disse diante de Luísa, com uma voz de despeito:
- Para umas tudo, para outras nada!...
Luísa riu, acudiu:
- Tolices! Eu sou a mesma pra todas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.